A edição deste ano de Todos os gêneros: mostra de artes e pluralidades é a primeira dedicada a um autor: uma celebração à vida e à poética do escritor João Silvério Trevisan. Não é por menos: Trevisan é um dos nomes mais relevantes dos debates sobre gênero no país. Sua produção literária, para além de seu experimentalismo e de sua intertextualidade, de seu confronto com certa ideia de Brasil e de uma análise da memória, também traz uma perspectiva subjetiva, tantas vezes carregada de dor, da experiência homossexual do amor e de outros afetos.
De 28 de julho a 2 de agosto de 2026, o Itaú Cultural (IC) apresenta uma programação diversa que dialoga, direta ou indiretamente, com a obra e a história do criador de Devassos no paraíso. A abertura do evento, aliás, é uma conversa com o próprio Trevisan.
Importante: para assistir a algumas das atrações, é necessário reservar ingressos. Os ingressos são gratuitos e estão disponíveis no dia 28 de julho, às 12h, na plataforma Inti. Em caso de dúvidas, clique aqui
Abertura – Escrevo para ser amado: Trevisan e suas trajetórias
com João Silvério Trevisan e Renata Pimentel
Texto por João Silvério Trevisan:
Eu nunca tive dúvida de que venho perseguindo o amor em toda a minha trajetória. Igualmente, não temo confessar em público (como faço agora) que amar é componente intrínseco da minha vocação literária. Não, não escrevo para agradar – caso possam entender assim. Seria uma quimera ridícula querer agradar a todo mundo indistintamente. Faz parte dessa confissão constatar que o exercício da minha literatura, tão amoroso, começa por um desesperado apelo a mim mesmo para aprender a me amar. Não, não se trata de autoajuda, mas de exercício de sobrevivência. Quando escrevo, costumo meter o dedo em muitas feridas. É um risco. Para tanto, preciso de alguma garantia que começa justamente nos alicerces do meu eu, quero dizer, este projeto de Eu em constante devir. Isso faz parte do amor que devo a mim mesmo, tão incondicional quanto periclitante. Antes de tudo, minha escrita procura compreender melhor a mim mesmo, com minhas incompletudes, insatisfações, inseguranças. Ao escrever, ocorre um diálogo obrigatório comigo mesmo, nas mais diversas e fortuitas circunstâncias, desde personagens que crio e as estórias narradas até o estilo adotado e as escolhas expressivas. Mergulhar em mim significa que escrever me ajuda a compreender o mundo. E esse aprendizado passa, inevitavelmente, pelo viés amoroso, porque implica criar pontes, lançar inquietações e permitir interlocução com quem me lê. Esse era um gesto vital, especialmente no período da ditadura militar, em que não havia espaço para dissidências. Minha solidão gritava pela necessidade do amor. Desde então, me parece natural que a literatura tenha a função de denunciar o exílio. Para mim, isso implica, ainda hoje, uma genuína proposta amorosa.
terça 28 de julho de 2026 | 20h [com interpretação em Libras]
[classificação indicativa: 14 anos, segundo autodefinição]
[duração aproximada: 120 minutos]
Teatro (térreo) – 224 lugares
Entrada gratuita.
Reserve seu ingresso pela Inti no dia 28 de julho, a partir das 12h.
Viagem a Veneza – narrativa de João Silvério Trevisan em seu processo de criação do romance Ana em Veneza
com João Silvério Trevisan
O autor compartilha com os participantes desses encontros o seu processo de criação do romance Ana em Veneza e, ao mesmo tempo, orienta o público em exercícios de elaboração literária.
quarta 29 de julho a domingo 2 de agosto de 2026
quarta, quinta e sexta | 18h
sábado e domingo | 16h
[classificação indicativa: 18 anos, segundo autodefinição]
[duração aproximada de cada encontro: 90 minutos]
Auditório (piso 3)
Inscrições gratuitas – 60 vagas
Inscrições a partir das 11h de 7 de julho, em itaucultural.org.br. Os resultados foram divulgados no mesmo site, no dia 17 de julho.
Dionísia do Agreste – uma tragicomédia greco-baiana
(Bahia, Brasil)
com As Rainhas do Centro
Este espetáculo teatral do coletivo drag baiano As Rainhas do Centro é a primeira dramaturgia inédita do grupo. Livremente inspirada nas obras Tieta do agreste (1977), de Jorge Amado, e As bacantes (405 a.C.), de Eurípedes, a peça retrata o retorno triunfal da deusa Dionísia a sua cidade natal, Tebas do Agreste, de onde havia sido expulsa anos atrás. Metade humana, metade divina, ela usa seus poderes e a força das bacantes para consumar sua vingança. A montagem é construída como uma opereta queer carnavalizada, misturando mitos que ajudaram a fundar tanto a sociedade grega como a baiana.
quarta 29 de julho de 2026 | 20h [com interpretação em Libras]
[classificação indicativa: 16 anos, segundo autodefinição]
[duração aproximada: 120 minutos]
Teatro (térreo) – 224 lugares
Entrada gratuita.
Reserve seu ingresso pela Inti a partir das 12h do dia 28 de julho.
Los objetos de mi memoria
(Santiago, Chile)
com Omar Morán e a ONG Eternamente Sou
Los objetos de mi memoria [Os objetos de minha memória] é uma performance baseada em um dispositivo cênico efêmero, por meio do qual o público, enquanto desfruta de um lanche, percorre um museu de objetos. Com a plateia são compartilhados testemunhos sobre esses itens – “tesouros anônimos” de pessoas comuns, os quais dão conta de um processo coletivo a partir de pertences individuais. A ação é uma parceria com a ONG Eternamente Sou, trazendo a comunidade LGBTQIAPN+ da terceira idade como público central. Juntos, Omar Morán, responsável pelo espetáculo, e a ONG criam um espaço de escuta, celebração e visibilidade.
quinta 30 e sexta 31 de julho de 2026 | 15h [com interpretação em Libras]
[classificação indicativa: 14 anos, segundo autodefinição]
[duração aproximada: 60 minutos]
Espaço Criativo (9º andar) – 50 lugares
Entrada gratuita.
Distribuição de ingressos: uma hora antes do início do evento.
Metendo a boca
(Ceará, Brasil)
com Ricardo Tabosa
Em Metendo a boca, um homem conta sobre o momento em que perdeu a fala, ainda na infância, ao descobrir que seu “jeitinho” incomodava muita gente. A partir dessa lembrança, ele inicia uma jornada visceral de resgate em busca da própria voz. Um caminho cheio de desvios, confrontando questões de identidade e sexualidade: o que é ser um homem hoje? Entre silêncios e desabafos, a arte do lip sync convoca uma multidão de vozes que se embaralham entre si. A boca torna-se um lugar de disputa, no qual a linguagem aparece fragmentada, instável, atravessada por tensões entre o que se diz, o que se cala e o que escapa. Inspirado na trajetória do próprio ator Ricardo Tabosa, o espetáculo investe na sobreposição entre memória e invenção, abordando, com humor e sensibilidade, as discussões urgentes sobre silenciamentos impostos às vivências LGBTQIAPN+ e a crise da linguagem no mundo contemporâneo.
quinta 30 de julho de 2026 | 20h [com interpretação em Libras]
[classificação indicativa: 12 anos, segundo autodefinição]
[duração aproximada: 60 minutos]
Teatro (térreo) – 224 lugares
Entrada gratuita.
Reserve seu ingresso pela Inti a partir das 12h do dia 28 de julho.
DARKRUIM
(Rio Grande do Norte, Brasil)
com João Paulo Lima
Em um mundo no qual a norma dita os padrões de beleza e aceitação, corpos que desafiam essa normatividade são frequentemente marginalizados e excluídos. É nesse cenário que surge DARKRUIM, um solo de dança envolvente e provocador, concebido e interpretado por João Paulo Lima. A obra nos convida a uma imersão sensível nas experiências de um corpo com deficiência em sua busca por espaços de pertencimento e aceitação, revelando as nuances das descobertas corporais e sexuais num contexto de capacitismo e hegemonia.
quinta 30 e sexta 31 de julho de 2026 | 23h [com interpretação em Libras]
[classificação indicativa: 14 anos, segundo autodefinição]
[duração aproximada: 60 minutos]
Espaço Criativo (9º andar) – 50 lugares
Entrada gratuita.
Distribuição de ingressos: uma hora antes do início do evento.
Exibição dos curtas Ferro’s Bar e Velcro
com Aline Assis, Renata Pimentel e Rita Quadros
mediação Mayara Santana
Com base em documentos históricos e entrevistas com lésbicas que viveram e lutaram nas décadas de 1970 e 1980 durante a ditadura militar, Ferro’s Bar (2022) conduz o público para um episódio central na formação do movimento lésbico brasileiro: o levante do Ferro’s Bar, conhecido também como o “Stonewall brasileiro”. O filme mostra como as lésbicas se tornaram sujeitos políticos por meio da luta contra a censura, a repressão e a violência.
O filme Velcro (2025) apresenta Day (Juliana Linhares), uma compositora e cantora cujo sonho é viver de sua arte. Ela herda um estabelecimento comercial de sua tia Das Dores, mulher forte que deixou o interior do Rio Grande do Norte e fez a vida sozinha em Recife (PE). Day não hesita em transformar o restaurante em um bar, onde poderá, enfim, colocar a música como protagonista. Com a ajuda de sua melhor amiga, Marina (Karina Buhr), e de várias profissionais mulheres, nasce um bar que vira o point musical e da cena artística no centro da capital pernambucana. Apesar das dificuldades financeiras e das agruras de ser uma mulher empreendendo num mundo misógino e machista, a inauguração do estabelecimento, nomeado Velcro, traz sucesso, surpresas e parcerias, como o encontro com Josy (Larissa Lisboa), que também tenta conciliar a vida trabalhando para sustentar a si, sua mãe e o desejo de trabalhar com música.
sexta 31 de julho de 2026 | 20h [com interpretação em Libras]
[classificação indicativa: 18 anos, segundo autodefinição]
[duração aproximada: 120 minutos]
Teatro (térreo) – 224 lugares
Entrada gratuita
Reserve seu ingresso pela Inti a partir das 12h do dia 28 de julho.
Me acalmo danando: a música de Angela Ro Ro
com Cida Moreira
Cida Moreira tem interpretado as canções de Angela Ro Ro (1949-2025) durante toda a sua trajetória. Neste show, essas duas artistas se unem na esfera da alma, ambas habituadas a canções feitas com a lâmina afiada que corta pulsos e corações.
sábado 1º de agosto de 2026 | 20h [com interpretação em Libras]
[classificação indicativa: 14 anos, segundo autodefinição]
[duração aproximada: 80 minutos]
Teatro (térreo) – 224 lugares
Entrada gratuita.
Reserve seu ingresso pela Inti a partir das 12h do dia 28 de julho.
Canções e poesia
com Cida Moreira
Um repertório heterogêneo de canções magníficas, um presente e um desafio para uma intérprete que tem como escolha a poesia em toda a sua magnitude. Uma artista da palavra musicada em um show de piano, voz e emoções.
domingo 2 de agosto de 2026 | 18h [com interpretação em Libras]
[classificação indicativa: 14 anos, segundo autodefinição]
[duração aproximada: 80 minutos]
Teatro (piso térreo) – 224 lugares
Entrada gratuita.
Reserve seu ingresso pela Inti a partir das 12h do dia 28 de julho.