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CineAula IC Play 2026 #1: Acalanto: entre interdisciplinaridades e afetos

Abrindo a edição de 2026 do “CineAula IC Play”, uma sequência didática sobre o curta-metragem “Acalanto”, baseado em um conto de Mia Couto

Publicado em 12/03/2026

Atualizado às 12:10 de 12/03/2026

CineAula IC Play – 2a edição
Luz, câmera, educAção: 
o streaming gratuito do cinema brasileiro na sala de aula

por Talita Seniuk

Sequência didática #1: Acalanto: entre interdisciplinaridades e afetos

Ficha técnica

Título: Acalanto
Ano: 2013
Direção: Arturo Saboia
Elenco: Léa Garcia e Luiz Carlos Vasconcelos
Estado: Maranhão
Classificação indicativa: livre
Gênero: drama
Idioma: português
Sinopse: Dona Luzia, uma mulher negra e não alfabetizada, pede a Chico, um escriturário, que leia para ela repetidamente a única carta que possui de seu filho, de quem não tem notícias há anos. Ela volta com frequência obstinada por novas leituras, e ele, então, começa a alterar o conteúdo do texto enquanto lê, a fim de confortá-la com as suas palavras. O curta-metragem foi baseado no conto “A carta”, do escritor moçambicano Mia Couto.

I. CARTA POR UMA AMPLA ABORDAGEM DE ACALANTO 

Olá, professor; olá, professora!

Que a educação transforma vidas, você já sabe! E isso ocorre porque, além de promover a apreensão de conteúdos curriculares, ela se volta para a formação humana integral. Nesse sentido, a própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que estabelece princípios e objetivos de aprendizagem para a Educação Básica, coloca como imprescindível o estímulo ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais e à formação de valores.

Pensando nisso, a proposta de trabalho com o curta-metragem Acalanto visa possibilitar a mediação de objetos de conhecimento da área de ciências humanas e sociais aplicadas com a contribuição de linguagens e suas tecnologias, extrapolando seu alcance para um diálogo com as competências gerais, em especial a número 9, que prevê:

Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza (Brasil, 2018, p. 10).

 Além de contemplar conteúdos curriculares, portanto, o objetivo da abordagem do curta é promover a empatia e a cooperação, o que pode ocorrer por meio da observação de aspectos da narrativa, como a solidariedade e o afeto entre personagens. Dessa forma, a abordagem da obra também contempla um componente curricular obrigatório, o projeto de vida, que é essencial para a formação humana, seja como uma disciplina específica ou transversal – a depender da rede de ensino.

Não obstante, esta sequência didática, além de mediar os objetos de conhecimento das áreas de ciências humanas e linguagens e de transitar pelas competências gerais, apresenta uma sugestão para o trabalho com a BNCC de Computação. Essa abordagem é estimulada considerando que os recursos digitais estão cada vez mais presentes em nossa sociedade e na vida dos estudantes. E mais, esta sequência também colabora com a abordagem de dois Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas (ODS/ONU): saúde e bem-estar (ODS 3) e educação de qualidade (ODS 4). 

Desse modo, esta sequência didática foi pensada para que você tenha várias possibilidades de trabalho com as suas turmas por meio do curta-metragem Acalanto. É possível, ainda, adaptar as sugestões aqui apresentadas de acordo com os estudantes, a rede de ensino e os materiais disponíveis na escola. Além disso, este material considera a inclusão de estudantes público-alvo da Educação Especial, a fim de auxiliar na construção de uma educação inclusiva, em que todos possam participar efetivamente da proposta de aprendizado e do letramento audiovisual.

Bom trabalho!

A imagem mostra a atriz Léa Garcia séria, olhando para outra pessoa. Ela é uma mulher negra e usa uma roupa branca com flores azuis.
Léa Garcia em Acalanto | imagem: divulgação


II. PLANO-SEQUÊNCIA

a) Luz – Que segredos guarda um envelope?

Objetivo

Mobilizar o conhecimento prévio dos estudantes a respeito da carta e promover uma discussão crítica a respeito desse meio de comunicação em diálogo com objetos de conhecimento da história, em especial: fontes históricas; patrimônio material e imaterial; e memória individual e coletiva.

Habilidades da BNCC

(EM13CHS104) Analisar objetos e vestígios da cultura material e imaterial de modo a identificar conhecimentos, valores, crenças e práticas que caracterizam a identidade e a diversidade cultural de diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço.

(EM13CHS106) Utilizar as linguagens cartográfica, gráfica e iconográfica, diferentes gêneros textuais e tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais, incluindo as escolares, para se comunicar, acessar e difundir informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.

Mãos à obra

A proposta deste exercício é realizar uma mobilização inicial do conhecimento dos estudantes por meio de perguntas motivadoras. As questões terão o objetivo de incentivá-los a perceber práticas que caracterizam a identidade e a diversidade cultural das sociedades inseridas em diferentes tempos e espaços. Para isso, o fio condutor é o objeto carta como fonte histórica e relacionada à experiência individual e coletiva. Além disso, será incentivado o reconhecimento da carta como um suporte à memória pessoal e/ou coletiva e, sob esse viés, como patrimônio cultural material (por ser um referencial físico) e imaterial (pelo seu possível teor). 

Alguns dos primeiros objetos de conhecimento da história no Ensino Médio são: percepção de que todos somos sujeitos históricos; identificação de fontes históricas materiais e imateriais; reconhecimento da noção de patrimônio, um conjunto de bens que uma pessoa ou um grupo de pessoas consideram importante pelo seu valor histórico, social e cultural, entre outros; compreensão da ideia de memória e de esquecimento. Também é esperado que, além de desenvolver essas noções, os estudantes relacionem esses conhecimentos entre si, fortalecendo o pensamento lógico e crítico.

Pensando nisso, para motivar a mobilização desses conhecimentos, é possível entregar aos estudantes um envelope de carta fechado ou fazer a projeção da imagem de um envelope desses. Caso opte por disponibilizar um envelope neste momento, se possível escolha um que seja colorido, para chamar mais atenção, e escreva dados fictícios nele: nome do remetente e nome e endereço do destinatário. Para iniciar a mobilização e o despertar da curiosidade sobre a obra Acalanto, é possível usar o nome da protagonista Luzia como destinatário e o do seu filho, José Carlos, como remetente; já o “bairro fictício” pode se chamar Acalanto. Esse envelope construído ainda poderá ser usado em outras aulas.

Se preferir projetar a imagem de um envelope ou carta, escolha uma simples, em que não haja muitos adornos no objeto, para que este seja rapidamente identificado – e, se possível, também manipule a imagem para inserir os dados fictícios, como descrito no parágrafo anterior.

Durante a apresentação do envelope, em meio digital ou físico, questione:

- O que é isto?

- Para que serve?

- Como funciona ou funcionava este objeto?

- Alguém usa atualmente este meio de comunicação?

- Pelo que geralmente ele é substituído?


Espera-se que os estudantes saibam que se trata de uma carta e descrevam o funcionamento desse meio de comunicação: um remetente escreve um texto em uma folha, coloca-o dentro de um envelope identificando o destinatário com endereço e código de endereçamento postal (CEP), e então o envia por meio de um serviço de correio. Se você optou por inserir os nomes dos personagens do curta-metragem, os estudantes podem também se questionar sobre quem são o destinatário e o remetente e qual é o conteúdo da carta.

Depois dessa introdução, em uma nova rodada de perguntas motivadoras, questione: 

- Uma carta pode ser uma fonte histórica?

- Ela é um patrimônio? Material ou imaterial?

- Pode ser considerada um suporte à memória humana?

- Uma carta pode ser considerada um patrimônio pelo seu valor afetivo?


Neste momento, é importante que fique claro para os estudantes que uma carta pode ser considerada uma fonte histórica e um patrimônio, tanto no caso de ser importante para uma única pessoa ou núcleo familiar quanto no caso de ser um marco para a história coletiva; esse último caso pode ocorrer, por exemplo, se a carta for escrita por uma figura histórica e tiver conteúdo relevante para uma nação.

Como a história tem como objeto de estudo a ação da humanidade através dos tempos, a memória é outro conceito fundamental nessa abordagem de como pessoas ou grupos lembram o passado e constroem significados a seu respeito. Comente com os estudantes que nossa memória pode ser ativada com gatilhos – por exemplo, com algo que esteja escrito numa carta.

A imagem traz o ator Luiz Carlos Vasconcelos. Ele olha para frente, veste uma camisa, tem cabelo liso, barba e bigode. O artista é um homem branco. A foto apresenta uma luz amarelada.
Luiz Carlos Vasconcelos em Acalanto | imagem: divulgação

b) Câmera – Remetente: filho da saudade

Objetivo

Promover uma discussão crítica a respeito da obra Acalanto, estimulando análises interpretativas da obra e posterior produção textual inspirada nas discussões suscitadas pelo curta-metragem e pelos conceitos de história discutidos na atividade anterior.

Habilidades da BNCC

(EM13CHS101) Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais.

(EM13LGG401) Analisar criticamente textos de modo a compreender e caracterizar as línguas como fenômeno (geo)político, histórico, social, cultural, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso.

Mãos à obra

Para este segundo exercício, é proposto que os estudantes assistam ao curta-metragem Acalanto e sejam motivados a refletir com novas perguntas para, posteriormente, realizarem uma atividade de produção textual. Comente, antes de iniciar a exibição, que se trata de 22 minutos de obra, ou seja, um pequeno espaço de tempo cronológico, mas repleto de sentidos.

Oriente-os a prestar atenção na construção visual, como o local onde ocorre a narrativa, as construções e os objetos apresentados, as roupas e as expressões dos personagens. Também reforce a importância de outros elementos nas cenas, como as combinações de cores, o uso de sombras, a presença de animais e os joguetes psicológicos – previsibilidade das ações dos personagens e surpresas com outras atitudes.

Caso julgue necessário, apresente o significado da palavra “acalanto”, que, segundo a primeira acepção do dicionário Aulete digital, é relacionada a cantar baixo, de modo a embalar e aconchegar uma criança a fim de levá-la a adormecer.

Nessa contextualização da obra, deixe claro também que o curta-metragem foi baseado no conto “A carta”, do escritor moçambicano Mia Couto, e relacione essa informação com a discussão da atividade anterior, na qual conversaram a respeito da carta como meio de comunicação e objeto histórico. 

Durante a exibição do curta, o ideal é que todos possam assistir à obra juntos e com a sua supervisão; assim, muitas reações podem ser observadas por você. Para isso, explore os recursos da escola, como exibição na biblioteca, na sala de informática ou em uma televisão ou projetor na própria sala de aula.

Depois da exibição da obra, conduza uma discussão sobre ela, a fim de que os estudantes falem livremente sobre o que compreenderam do curta-metragem. Eles podem citar questões como analfabetismo e desigualdade, mas também amizade, memória e cumplicidade. Nessa discussão, instigue-os a criar teorias sobre quais seriam as motivações de José Carlos para ter saído de casa, como a busca por uma vida melhor ou um emprego.

Além desses aspectos, incentive-os a descrever como perceberam a relação entre Luzia e Chico e por que, na opinião deles, o homem começou a mudar o texto da carta enquanto a lia para Luzia. Eles podem, por exemplo, interpretar que, tendo percebido a saudade maternal dela em relação ao filho, o rapaz decidiu acrescentar palavras ao seu discurso, não para iludir, mas para afagar a mulher, como em um “acalanto”. Valide as diferentes interpretações, desde que baseadas em elementos presentes na obra.

Para estimular esse diálogo, é possível fazer as seguintes questões:

- Gostaram do filme? Por quê?

- Quais poderiam ser os motivos que fizeram José Carlos ter saído de casa?

- Por que será que Luzia recebeu apenas essa carta de José Carlos?

- Vocês conhecem alguém ou alguma família que teve um membro que saiu em busca de uma vida melhor e jamais retornou ou deu notícias?

- Vocês conhecem alguém não alfabetizado, como Luzia, que precisa recorrer a outras pessoas para que estas lhe façam uma leitura?

- Que outro nome você daria para o curta-metragem?

- Vocês teriam lido a carta exatamente como ela estava escrita em todos os encontros ou teriam feito como Chico?

 
A narrativa ocorre entre os anos de 1980, data de escrita da carta, e 1990, data que consta na certidão de óbito de José Carlos. Já o espaço se constitui numa cidade com construções coloniais – nesse sentido, é possível interpretar que é uma cidade “parada no tempo”, assim como a vida de Luzia parece ter parado, tanto para esperar a leitura diária da carta quanto para o dia de retorno do filho.

Os gatos que rapidamente surgem em cena externas parecem dar um toque de leveza à ambientação e reforçar o ar pacato da sociedade, em contraste com a inquietude dos personagens. Um momento de tensão nesse contexto de marasmo ocorre quando Chico, que vira a certidão de óbito de José Carlos, vai à casa de Luzia, invertendo o movimento que sempre fora oposto, em que a mulher o procurava em sua casa. A tensão entre ambos é perceptível, e Chico parece tentar informar o ocorrido ao ler a carta, novamente inventando o seu texto.

Ao fim desse encontro, Luzia diz que uma brasa do fogareiro atingiu seus olhos, mas, queimando entre as chamas, parece estar a carta de seu filho, a qual fora motivo de seu apego durante tantos anos. Então podem ser realizadas questões sobre esse desfecho: 

- Luzia teria compreendido que seu filho morrera?

- Ela queima a carta? Se sim, qual seria o significado desse ato?

- O que vocês acharam desse desfecho?

Depois dessa discussão sobre a interpretação da obra, incluindo o diálogo sobre o seu desfecho, o próximo passo é iniciar a atividade de produção textual. Para isso, proponha aos estudantes que escrevam uma carta ou um bilhete para alguém de quem eles sintam saudade. Podem-se usar notas autoadesivas coloridas, papel sulfite colorido ou outro material disponível na escola.

Conforme for pertinente, adapte a atividade, sobretudo para os estudantes público-alvo da Educação Especial. Por exemplo, se houver um estudante com deficiência visual, a turma pode ser convidada a gravar áudios em forma de carta; ou, se houver alguém com dificuldade de alfabetização, proponha que a carta ou o bilhete seja escrito com desenhos também. Ainda, os estudantes podem se auxiliar em grupos, para que um ajude o outro a ultrapassar os obstáculos que porventura encontrem. Você, professor, pode optar pelas adaptações necessárias, considerando o tempo da aula e o perfil da turma.

O ideal é que, se a atividade for de produção de carta, seja realizada em mais de uma aula e em colaboração com a área de linguagens e suas tecnologias. Já a escrita de um bilhete pode ocorrer em uma aula apenas; entretanto, esta pode ser uma abordagem um pouco mais superficial, a depender da escrita – embora também corrobore com a área citada.

Se algum estudante disser que não sente saudade de ninguém, solicite a ele que pense em alguém de quem gosta, por quem tem muito carinho, e então imagine essa pessoa distante, em uma viagem longa, por exemplo. Então, peça que escreva com base nessa situação fictícia. Reforce, de toda forma, que todos devem ser sinceros em suas produções, cabendo apenas a eles o teor do documento elaborado.

Cada estudante pode inserir sua produção em um envelope, adquirido pela escola ou confeccionado na própria turma, dando maior privacidade ao conteúdo. Também é possível propor o acondicionamento da produção em uma embalagem lacrada, como uma cápsula do tempo, a ser aberta ao fim do ano letivo, por exemplo, numa “aula da saudade”. Ou, ainda, os textos podem ser expostos num mural coletivo, mas, para isso, é necessário combinar essa exposição com a turma desde o início da proposta, a fim de garantir que todos se sintam à vontade com essa publicação.

Se a preferência for de que somente quem escreveu tenha acesso ao texto, certamente os estudantes serão mais sinceros na hora de registrar as suas palavras e emoções. Por isso, guardar essa produção para entregar aos próprios estudantes em um momento futuro pode ser uma forma de fortalecer os vínculos socioemocionais com a turma ao fim do período letivo. Se a escrita for publicizada, por outro lado, faz-se essencial reforçar isso ao longo de toda a produção, estimulando os estudantes a refletir sobre a diferença entre privado e público e o que é pertinente em cada caso. Ainda, em ambos os casos – carta pessoal ou pública –, reforce a importância do respeito e da ética.

Arturo Saboia segura uma claquete em que aparece escrito o título do filme: “Acalanto”. O diretor veste uma camiseta vermelha. Arturo é branco, tem cabelo liso e escuro. Ao fundo, desfocados, homens estão sentados em torno de uma mesinha, na rua.
Arturo Saboia, diretor de Acalanto | imagem: divulgação

c) AçãoCorrespondência e afetos

Objetivo

Estimular uma criação textual coletiva em meio digital, a fim de explorar tanto habilidades socioemocionais quanto as relacionadas ao uso de ferramentas digitais.

Habilidades da BNCC e da BNCC Computação

(EM13LGG703) Utilizar diferentes linguagens, mídias e ferramentas digitais em processos de produção coletiva, colaborativa e projetos autorais em ambientes digitais.

(EM13CO05) Identificar os limites da Computação para diferenciar o que pode ou não ser automatizado, buscando uma compreensão mais ampla dos limites dos processos mentais envolvidos na resolução de problema.

(EM13CO17) Construir redes virtuais de interação e colaboração, favorecendo o desenvolvimento de projetos de forma segura, legal e ética.

(EM13CO20) Criar conteúdos, disponibilizando-os em ambientes virtuais para publicação e compartilhamento, avaliando a confiabilidade e as consequências da disseminação dessas informações.

Mãos à obra

A proposta deste último exercício é mobilizar os estudantes para uma produção digital coletiva, em que cada um escreverá uma minicarta de apenas dois parágrafos. Neste momento, espera-se que eles já tenham entendido como a carta pode ser considerada uma fonte histórica e um patrimônio, de modo a considerar esse conhecimento em sua criação.

Em Acalanto, a carta era o último elo de comunicação entre Luzia e seu filho, José Carlos, e o afeto proporcionado pelo objeto extrapolou a sua função social entre remetente e destinatário ao envolver um terceiro: Chico. Como leitor da carta, Chico parece desenvolver uma relação de amizade com Luzia, talvez até de caráter maternal. As leituras eram repletas de sentimentos e cumplicidade, situação que só existe entre amigos.

Nesse sentido, a atividade visa promover na turma uma atmosfera similar de cumplicidade em torno de uma carta. Então, com esses aspectos do filme em mente, solicite aos estudantes que utilizem uma ferramenta on-line para criar e editar textos, sendo sua a escolha de qual delas usar. Por exemplo, pela acessibilidade das ferramentas do Google, você pode criar um arquivo no Google Docs para ser editado de modo simultâneo por todos da turma. Ou, se preferir, há outros aplicativos e plataformas, como o Padlet, que é uma ferramenta bastante dinâmica para a criação de murais digitais colaborativos. Fica a seu critério; sinta-se livre para encontrar a ferramenta mais adequada.

Em relação aos dispositivos para acessar as ferramentas, os estudantes podem usar o próprio celular pessoal ou computadores ou tablets da escola, a depender da rede de ensino e da disponibilidade de recursos, tudo em consonância com a Lei no 15.100/2025.

Durante a produção, cada estudante deverá escrever uma minicarta com dois parágrafos. No primeiro, o texto deve ser endereçado para o “eu” do futuro, que pode ser o eu do fim do ano vigente, do término do Ensino Médio ou mais à frente no tempo – a turma pode escolher o marco temporal coletivamente ou você pode propor um. Cada estudante deve pensar em como gostaria de estar nesse futuro, podendo, por exemplo, expressar desejos para si mesmo. No outro parágrafo, ele deve endereçar as suas palavras para a turma, deixando uma mensagem de carinho e amizade.

Outra sugestão é que cada estudante insira o seu nome antes de iniciar seus respectivos parágrafos, assim fica mais fácil monitorar a produção de cada um durante a atividade; além disso, no momento de leitura, haverá a referência de quem criou cada excerto. Após a atividade, é importante que os estudantes não possam mais alterar o texto, pois a ideia é ter uma produção fechada a ser revisitada em um momento posterior, conforme você julgar pertinente.

Acompanhe atentamente o desenvolvimento da atividade, reforçando o bom uso da ferramenta digital e o cuidado com as palavras, prezando sempre o respeito mútuo e a ética. Adapte a atividade conforme necessário, a fim de que todos possam participar. Redobre a atenção para a necessidade de adaptações sobretudo direcionadas àqueles que façam parte do público-alvo da Educação Especial. Cabe a você, docente, a melhor escolha de como realizar as adaptações. Por exemplo, os estudantes podem pesquisar e usar recursos de acessibilidade disponíveis nas próprias ferramentas digitais, como de escrita por voz e leitura de tela. Eles podem, ainda, fazer grupos para que seus integrantes ajudem uns aos outros a ultrapassar obstáculos.

A atividade deve ser concluída com uma leitura coletiva da construção textual, com as minicartas sendo lidas em sequência. Depois, abra espaço para o debate, pois assim os estudantes podem conversar sobre as escolhas de cada um, favorecendo a empatia e os laços afetivos entre eles. Por fim, a produção deve ser guardada para ser relida em um dos últimos dias de aula do ano letivo. Essa releitura pode ser feita numa “aula da saudade” para o projeto de vida, por exemplo.

A ideia dessa atividade coletiva é criar memórias afetivas entre colegas por meio da carta, que poderá ser retomada e relida em outros momentos, como Luzia e Chico fazem com a correspondência de José Carlos. Nesse sentido, também é possível propor aos estudantes que reflitam sobre como a carta tem um caráter duradouro, diferentemente das mensagens trocadas em redes sociais na atualidade, por exemplo, de caráter mais efêmero. 

III. CORTA – CURIOSIDADES E SUGESTÕES

Acalanto foi gravado em apenas cinco dias e teve como palco o Centro Histórico de São Luís (MA), que foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1974 e reconhecido como patrimônio mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 1997. Então, considerando que fonte histórica e patrimônio são o fio condutor da aula, algumas possibilidades a serem exploradas sobre São Luís são:

- o texto “São Luís (MA)”, do Iphan;

- o texto “Centro Histórico de São Luís”, da Unesco;

- o curso Educação Patrimonial Online, na plataforma Eskada, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).

Outra possibilidade é explorar os textos da Enciclopédia Itaú Cultural que dialogam ou com a obra Acalanto ou com os objetos de conhecimento mobilizados ao longo de sua abordagem. Seguem algumas sugestões:

- minibiografia de Léa Garcia, que interpretou Luzia em Acalanto;

- minibiografia de Luiz Carlos Vasconcelos, que interpretou Chico em Acalanto;

- verbete “Cultura material e imaterial”.

Para explorar esse e outros materiais da Enciclopédia Itaú Cultural, acesse também a seguinte ferramenta:

- Verbeth, plataforma da Fundação Itaú que combina a tecnologia do ChatGPT com todos os dados da Enciclopédia Itaú Cultural, potencializando ainda mais o seu uso e a dinâmica da sua experiência.

 Caso queira aprofundar a reflexão sobre fontes e objetos históricos, seguem quatro sugestões:

- O capítulo “A história depois do papel”, de autoria de Marcos Napolitano, presente no livro Fontes históricas (2008), organizado por Carla Pinsky. O texto aborda o uso de fontes históricas que não as documentais (formais) para o trabalho do historiador.

- O longa-metragem Narradores de Javé (2003), drama brasileiro dirigido por Eliane Caffé. A obra conta a história de moradores de uma cidade baiana que decidem construir um documento para narrar todos os fatos históricos do local, a fim de conseguir a sua preservação, tornando-o um patrimônio histórico e cultural do país.

- A página “Histórias” do Museu da Pessoa. É possível aprofundar o reconhecimento de objetos históricos diversos ao navegar nos relatos disponíveis nessa página, na qual pessoas diversas compartilham suas experiências de vida.

- A crônica “Museu de cartas”, de Claudia Nina, um texto sensível sobre o caráter duradouro da carta e toda a afetividade em torno desse tipo de correspondência.

Considerando novas aulas e projetos com o mesmo fio condutor do curta-metragem Acalanto e possíveis correlações, a IC Play disponibiliza três obras interessantes que contam com sequências didáticas completas no CineAula IC Play, como esta, para trabalhar em sala de aula:

- Moventes (2023), drama dirigido por Jefferson Cabral, com duração de 11 minutos. A obra registra a migração de uma família inteira de Natal (RN) para São Paulo (SP). Sequência didática: “Memória em movimento”.

- Napo (2020), animação dirigida por Gustavo Ribeiro, com duração de 20 minutos. Nesta história, um senhor é acometido por Alzheimer e passa a viver com sua filha e seu neto, acompanhando a deterioração de sua memória a cada dia. Sequência didática: “A memória entre o afeto e a imaginação.

- Guida (2014), animação dirigida por Rosana Urbes, com duração de 11 minutos. Nela, Guida vive a experiência da velhice, explorando toda a potência libertada pela arte quando decide se permitir novas experiências. Sequência didática: “A velhice como um tempo de dançar realizações.

O ator Luiz Carlos Vasconcelos está subindo uma ladeira de paralelepípedos. Ele é um homem branco, veste uma camisa azul e uma calça marrom. Ao fundo, há um casarão antigo e um poste de luz.
Acalanto, de Arturo Saboia | imagem: divulgação


IV. REFERÊNCIAS

ACALANTO. In: DICIONÁRIO AULETE DIGITAL. São Paulo: Editora Lexikon, 2026. Disponível em: aulete.com.br/acalanto. Acesso em: 22 fev. 2026.

BRASIL. Lei no 15.100, de 13 de janeiro de 2025. Dispõe sobre a utilização, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais... Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 jan. 2025. Disponível em: planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15100.htm. Acesso em: 26 dez. 2025.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: basenacionalcomum.mec.gov.br. Acesso em: 23 dez. 2025.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Computação – complemento à BNCC. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2022. Disponível em: portal.mec.gov.br/docman/fevereiro-2022-pdf/236791-anexo-ao-parecer-cneceb-n-2-2022-bncc-computacao/file. Acesso em: 23 dez. 2025.

CABRAL, Jefferson. Memórias em movimento. Itaú Cultural, 18 maio 2025. Disponível em: www.itaucultural.org.br/secoes/cineaula-ic-play/cineaula-ic-play-2-memorias-em-movimento. Acesso em: 23 dez. 2025.

CENTRO Histórico de São Luís (MA). Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ca. 2024. Disponível em: portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/34. Acesso em: 22 dez. 2025.

CORREA, Maria Paula de Jesus. A velhice como um tempo de dançar realizações. Itaú Cultural, 8 set. 2025. Disponível em: itaucultural.org.br/secoes/cineaula-ic-play/cineaula-ic-play-6-a-velhice-como-um-tempo-de-dancar-realizacoes. Acesso em: 23 dez. 2025. 

CULTURA material e imaterial. In: ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Disponível em: enciclopedia.itaucultural.org.br/termos/194279-cultura-material-e-imaterial. Acesso em: 22 dez. 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7.

ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Verbeth. Plataforma da Fundação Itaú com o uso de inteligência artificial. Disponível em: enciclopedia.itaucultural.org.br/verbeth/app. Acesso em: 9 jan. 2026. 

HISTÓRIAS. Museu da Pessoa. Página com relatos de pessoas. Disponível em: museudapessoa.org/historias. Acesso em: 6 jan. 2026.

HISTORIC Centre of São Luís. Unesco World Heritage Centre, ca. 1992-2026. Available at: whc.unesco.org/en/list/821. Accessed on: January 9, 2026.

LÉA Garcia. In: ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Disponível em: enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/27441-lea-garcia. Acesso em: 22 dez. 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7.

LUIZ Carlos Vasconcelos. In: ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Disponível em: enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/10184-luiz-carlos-vasconcelos. Acesso em: 23 dez. 2025. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7.
 

NAPOLITANO, Marcos. A história depois do papel. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2008. p. 235-289.

NARRADORES DE JAVÉ. Direção: Eliane Caffé. Produção: Eliane Caffé, Luiz Alberto de Abreu et al. Rio de Janeiro: Bananeira Filmes; Gullane Filmes; Laterit Productions; RioFilme, 2003. 1 DVD (100 min).

NINA, Claudia. Museu de cartas. Rascunho, Rio de Janeiro, 3 ago. 2025. Disponível em: rascunho.com.br/cronistas/claudia-nina/museu-de-cartas. Acesso em: 23 dez. 2025. 

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Nações Unidas no Brasil, ca. 2025. Disponível em: brasil.un.org/pt-br/sdgs. Acesso em: 9 jan. 2026.

SILVA, Silas. A memória entre o afeto e a imaginação. Itaú Cultural, 11 nov. 2025. Disponível em: itaucultural.org.br/secoes/cineaula-ic-play/cineaula-ic-play-8-a-memoria-entre-o-afeto-e-a-imaginacao. Acesso em: 23 dez. 2025. 

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO. PatNET – Educação Patrimonial Online. Plataforma Eskada, 2025. Curso gratuito on-line. Disponível em: eskadauema.com/course/view.php?id=77. Acesso em: 9 jan. 2026.

Minibiografia da elaboradora

Talita Seniuk é licenciada em história [Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)], ciências sociais [Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)] e filosofia [Universidade Metropolitana de Santos (Unimes)]; e pós-graduada em metodologia do ensino de história e geografia (Cesumar) e ensino de sociologia [Universidade Candido Mendes (Ucam)]. No âmbito acadêmico, dedica-se aos estudos da cultura ucraniana. Além de ser professora efetiva da rede estadual de educação do estado de Mato Grosso, é coautora do livro Ucrânias do Brasil: 130 anos de cultura e tradição ucraniana (Máquina de Escrever, 2021); colunista do jornal Prácia, periódico dos ucranianos no Brasil, desde 2021; e membro fundador da Universidade Livre Ucraniana no Brasil Wira Wowk Selansky (2025).

O CineAula IC Play é um projeto do Itaú Cultural (IC) que consiste na publicação periódica, aqui site da instituição, de sequências didáticas baseadas em conteúdos da IC Play – plataforma de streaming gratuita do IC –, com o objetivo de promover o diálogo entre educação e cinema a partir de diferentes temáticas e da linguagem audiovisual. A iniciativa prevê o desenvolvimento de materiais educativos para subsidiar o trabalho com filmes disponíveis na IC Play em sala de aula, preferencialmente, bem como em contextos análogos, como cineclubes, oficinas e centros culturais, buscando, assim, estimular o letramento audiovisual e valorizar o cinema brasileiro. Além disso, pretende aproximar a arte e a cultura da Educação Básica, fomentar o pensamento crítico e criativo dos estudantes e estabelecer um diálogo contínuo com professores da Educação Básica. O projeto foi criado e é coordenado por Camila Fink, Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo.

Expediente desta sequência didática
Conselho editorial Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo
Autoria Talita Seniuk (selecionada via edital)
Edição Thayslane Ferreira (terceirizada)
Revisão Rachel Reis (terceirizada)

Confira aqui as sequências didáticas da primeira edição do CineAula IC Play.

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