Com a obra “Raízes do asfalto”, parte do projeto “Arte Urbana”, o artista conecta a cidade, as pessoas e a natureza
Publicado em 22/06/2026
Atualizado às 14:04 de 22/06/2026
A cidade de São Paulo, terra-mãe que acolhe uma vasta diversidade de pessoas, culturas, costumes e identidades, tornou-se tão plural quanto as inúmeras espécies de plantas existentes. É nesse cenário que o artista multimídia Ricardo Sotaq, de Embu das Artes (SP), utiliza sua obra Raízes do asfalto – exposta na fachada do Itaú Cultural (IC) – para evidenciar as muitas camadas desse jardim.
Ao mesclar personagens urbanos e elementos naturais, ele cria uma obra que reflete sobre convivência, inclusão e equilíbrio. Formado em design gráfico, Sotaq tem como principal característica em seus trabalhos a estética e os elementos da cultura hip-hop, sua grande fonte de inspiração.
O artista transforma sua arte em uma poderosa ferramenta de representatividade. Homem negro e com deficiência auditiva, ele encontrou na ausência do som a potência visual que guia sua criatividade desde a infância. Ele conta ao site do IC que espera que a obra leve o público a desacelerar por um instante e enxergar novas conexões entre o urbano, as pessoas e a natureza.
Confira a entrevista na íntegra.
Como foi sua caminhada até aqui, seu envolvimento com a arte, o grafite e o hip-hop?
Meu trabalho já teve várias fases, porque eu trabalho com arte desde que me conheço por gente. Mas eu trabalho full time com arte desde 2019, e já tem uns dez anos que venho seguindo nessa linha de ser inspirado pela cultura hip-hop.
Então, basicamente, meu trabalho tem essa raiz na cultura hip-hop, nesse estilo de cartoon, que são desenhos animados, e com uma estética de vetor, que tem a ver também com desenhos digitais. E, junto com a cultura hip-hop, vêm as pautas atuais, que são a diversidade, a inclusão, o empoderamento e tudo mais.
Além de pintar paredes e fazer grafites e murais, eu também pinto telas e faço ilustrações, tanto tradicionais quanto digitais.
Eu comecei em 2005 com o grafite. Já desenhava antes, e foi através da cultura hip-hop que eu conheci o grafite, vendo nos clipes, nas revistas, e, a partir daí, fui me interessando. Antes eu copiava mais desenhos de revistas em quadrinhos, coisa que acho que muita gente dos anos 90 teve como hábito, de desenhar como passatempo. Mas, a partir desse hábito, fui me aprofundando e pegando cada vez mais gosto; desde então, busco evoluir.
A arte sempre foi uma opção para você? Foi a única coisa que você quis seguir na vida ou algo que surgiu com o tempo?
Eu sempre tive aptidão para o desenho, mas não o enxergava tanto como arte. Acho que era pela imaturidade mesmo. Depois de um tempo, eu fui entender que talvez o fato de eu gostar de desenhar tivesse relação com a minha deficiência auditiva.
O médico me explicou, quando eu tinha uns dez anos, que quando você tem a perda de um sentido, ela acaba sendo compensada em outro. No meu caso, acabou sendo a visão. Eu passei a ser mais visual e a gostar de observar, de copiar.
Então, esse hábito de desenhar acho que já vem da infância. Mas enxergar isso como arte demorou bastante tempo. Apenas quando já estava inserido na cultura hip-hop é que comecei a enxergar tudo como arte: as artes visuais, a dança, a música.
Isso foi vindo com o tempo. Eu entrei através do desenho e, com o desenvolvimento e a maturidade, passei a enxergar como arte. Percebi que aquilo podia me fazer bem, que era uma maneira de me encontrar, me expressar, colocar minhas ideias e tudo mais.
A proposta da pintura na fachada traz o tema Jardim Urbano, muitos artistas levam para o lado da botânica, você trouxe pessoas. Como foi seu processo criativo para desenvolver a arte “Raízes do asfalto”?
Foi um desafio, porque a cultura hip-hop não está tão ligada à natureza, ela é mais voltada para o urbano, uma cultura que surgiu na cidade. Quebrei um pouco a cabeça pensando em como poderia me manter na temática sem perder a minha identidade. Comecei a pesquisar e até cheguei a analisar artistas que criaram as fachadas anteriores para entender como eles resolveram essa questão, mas cada um abordou o tema de forma muito particular.
Percebi que esse não era o caminho. Busquei, então, uma maneira de criar um contraste entre o urbano e a natureza. O elemento urbano são os personagens inspirados na cultura hip-hop e no cotidiano da cidade. O contraste é feito com o background de plantas, folhagens e rosas que estão ali, juntas e misturadas. Dessa forma, criei um equilíbrio entre o urbano e o natural. A partir daí, fui rabiscando e testando formas de mesclar esses elementos até chegar à proposta final que temos hoje na fachada.
Teve um momento em que eu estava fazendo a arte e fiquei pensando: será que eu estou viajando muito? Será que estou fugindo demais do tema? Mas eu acho que consegui transitar entre o hip-hop e a natureza de uma forma bem harmônica.
Como funciona seu processo artístico, a escolha dos temas abordados nas pinturas e dos espaços para as intervenções?
Eu sempre procuro, de alguma maneira, fazer com que quem olha a pintura consiga ver ali que é um militante da cultura hip-hop, independentemente da temática. Eu procuro sempre misturar os temas.
Por exemplo, em algumas outras pinturas e trabalhos que já fiz, mais voltados para uma temática infantil, eu me pergunto: como levar o hip-hop para isso? Aí começo a brincar de pegar um desenho infantil que já existe, coloco ele com uma vestimenta de hip-hop, praticando também atividades ligadas ao hip-hop.
Assim, por meio das pautas de inclusão, do jeito de se vestir e de como os personagens estão se comportando, quem observa consegue enxergar que ali tem hip-hop. Eu procuro sempre fazer essa mistura. Isso varia muito de temática para temática.
Como você entende a importância da arte ocupar esses espaços públicos como a fachada do IC?
Sobre a importância da arte pública, com certeza é enorme – ainda mais quando se trata de grafite, que eu considero uma das artes mais democráticas que existem, porque está ali na rua, de fácil acesso. Às vezes, a pessoa nem está procurando arte, mas acaba se deparando com ela – e isso pode tocar essa pessoa de alguma forma.
Além disso, por ser um espaço público, as pessoas também têm a oportunidade de ver a arte acontecendo, diferentemente de museus e galerias, onde geralmente a gente só vê a obra pronta. O artista produz no ateliê ou no estúdio e depois leva para expor. No caso da arte pública, não: ela é feita ali mesmo onde vai permanecer, certo?
E, no caso do Itaú Cultural, por exemplo, a obra já fica logo na entrada do espaço. Então, também funciona como um convite para as pessoas entrarem e aproveitarem as outras exposições que estão rolando.
E o que que você gostaria que as pessoas que passassem na Paulista sentissem ao ver a sua obra?
Essa é uma pergunta bem difícil, porque, geralmente, quando eu faço arte, eu não penso muito no que as pessoas vão pensar. Eu faço muito porque me sinto bem fazendo. Mas, ao mesmo tempo, eu também tenho um cuidado com aquilo que deve ser evitado pra não fazer mal às pessoas, pra não gerar conflito e tudo mais.
No geral, eu gosto de fazer e a obra acaba tendo suas consequências. Muitas vezes, são as pessoas se vendo nos personagens, nas pinturas, no dia a dia, nos hábitos… se enxergam ali. Eu acho que a palavra certa seria representatividade: levar representatividade por meio da minha arte.
E também vejo como uma forma de manter a cultura hip-hop viva, porque ali eu estou contando um pouco da nossa cultura. Então, de alguma forma, estou passando a nossa história adiante.
Em sua jornada na arte como você entende os seus desafios e as oportunidades sendo um artista deficiente e negro?
É uma questão em que, às vezes, a gente fica pensando se é coisa da nossa cabeça. Mas acho que não. Acho que todo mundo passa por isso mesmo. Só que, quando a gente começa a ter um pouco mais de letramento e a trocar ideia com pessoas parecidas com a gente, a gente percebe: não, acho que realmente tem algumas travas aí.
Por exemplo, quando começam a surgir espaços específicos para pessoas negras com deficiência, eu mesmo, às vezes, me questiono: será que eu mereço isso? Será que é isso? Aí a gente começa a olhar para o passado e vê o quanto isso também nos atrasou, o quanto fomos atrasados por esse contexto.
Então, querendo ou não, é uma forma de reparação. E muitas vezes, no momento, a gente nem entende direito – só vai entender o que aconteceu depois. Então acho que é uma luta constante que a gente vem travando. Tem melhorado, mas ainda tem muito a ser feito.
Existem artistas que te inspiram, no meio da música, danças e das artes visuais? Quem são elas?
Sim… Assim, não de maneira muito específica, pra citar nomes, porque eu busco muitas referências. Mas é difícil… Eu até tento lembrar nomes pra ser mais específico, mas acabo me inspirando em muitas coisas diferentes.
Por exemplo, quando vou a uma batalha de breaking, isso me inspira muito – ver a forma como os B-boys se vestem, como se portam. Quando vou a um show de rap também me inspira: o cenário, a forma como os rappers usam as palavras, como se colocam, como interagem com o público. Os DJs também! Tudo isso acaba sendo referência.
E, claro, as coisas do dia a dia me inspiram muito também. Muitos amigos meus, que caminham comigo, são uma grande fonte de inspiração – pessoas que estão ali no cotidiano e que me influenciam bastante no que eu faço.
Por fim, como foi sua experiência pintando a fachada do IC?
Quando a gente começa, conforme a pintura vai avançando, o pessoal passa a interagir mais. Porque, no início, com os rabiscos, o pessoal não entende muito, então não se interessa tanto. Mas, quando começam a surgir os traços e os rostos, aí passam a interagir.
Teve gente que veio falar que pintava também, que gostava, admirava, achava legal a iniciativa do banco de estar fazendo isso. Diziam que é uma pena que suja muito rápido. Mas, ainda assim, tive a oportunidade de falar um pouco do projeto, que se renova a cada três meses. A fachada suja não dura muito tempo, porque depois já dá espaço para outro artista.
Pude conversar com algumas pessoas. Também me perguntaram qual era a ideia do desenho, e eu pude explicar. Falei sobre a proposta da diversidade, da natureza, do contraste entre o urbano e o natural, e de como surgiram os personagens.
Perguntavam se os personagens eram pessoas reais, e eu explicava que não, que era tudo criação. Também percebi que muita gente parava para admirar, principalmente pessoas negras, por causa dos cabelos afro dos personagens. Muita gente parou para contemplar e elogiar esse aspecto também.