“Solitude” (2021), curta-metragem de Tami Martins e Aron Miranda, é o objeto desta sequência didática
Publicado em 14/09/2026
Atualizado às 21:09 de 10/09/2026
CineAula IC Play – 2a edição
por Igor Cardoso
Sequência didática #7: Cinema, solidão e coletividade em Solitude
Direção: Tami Martins e Aron Miranda
Estado: Amapá
Classificação indicativa: livre
Gênero: drama/experimental
Roteiro: Aron Miranda
Duração: 13 minutos
Produção executiva: Lara Lages
Direção de animação: Aron Miranda
Equipe de animação: Arnon Vicente, Arthur Delgado, Gizandro Santos e Joyce Nagamura, entre outros colaboradores
Direção de movimento/coreografia: Ana Caroline Santos e Jones Barsou
Direção de som: Aron Miranda
Sonoplastia e mixagem: Aron Miranda
Sinopse: O curta-metragem Solitude acompanha uma experiência de mergulho da personagem Sol em si mesma. A trajetória dela – percorrida em meio a divagações, silêncios aberrantes e paisagens de batelões mecânicos – convida a reflexões sobre solidão e isolamento. A montagem ilustra um retrato imemorial da condição humana: o pertencimento. Seja ele a uma causa, um sentimento, um território ou uma relação falida, trata-se de um elemento que, no caso de Solitude, transforma a narrativa em parte do fluxo do pensamento – e, assim, nessa obra, semeia forma e conteúdo ao mesmo tempo.
Caro professor e cara professora,
Vivemos em um tempo marcado por excessos de imagens, ruídos e conexões rápidas. Paradoxalmente, nunca estivemos tão sós. A solidão atravessa o cotidiano da juventude contemporânea, seja nas relações mediadas por telas, seja nas experiências de deslocamento, silenciamento e apagamento de memórias individuais e coletivas. Nesse contexto, o Amapá – estado que pode ser considerado recém-formado se levarmos em conta a longa trajetória de outros territórios federais do Brasil – luta atualmente para se definir como protagonista no futuro do país.
II. PLANO-SEQUÊNCIA
a) Luz – Acendendo memórias e percepções
Objetivos
Estimular a oralidade, a escuta sensível e o pensamento crítico por meio da reflexão sobre a solidão na contemporaneidade, relacionando vivências pessoais, território e linguagem audiovisual. Abre-se a possibilidade de entrelaçamento entre conhecimentos e discussões em sala com as vivências dos estudantes.
Habilidades da BNCC
(EM13LGG602) Fruir e apreciar esteticamente diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, assim como delas participar, de modo a aguçar continuamente a sensibilidade, a imaginação e a criatividade.
(EM13LP20) Compartilhar gostos, interesses, práticas culturais, temas/ problemas/questões que despertam maior interesse ou preocupação, respeitando e valorizando diferenças, como forma de identificar afinidades e interesses comuns, como também de organizar e/ou participar de grupos, clubes, oficinas e afins.
Mãos à obra
Organize a turma em uma roda de conversa. Inicie a atividade fazendo perguntas abertas:
- É possível se sentir sozinho mesmo estando acompanhado?
- Em que momentos a juventude se sente mais silenciada ou invisível? Quando você passou a perceber esse processo em sua trajetória?
- Você já participou de algum espaço coletivo (grêmio, grupo cultural, cineclube, projeto artístico)? Como foi essa experiência?
Na sequência, apresente brevemente o curta Solitude (2021) e seus diretores, destacando a importância da produção audiovisual e do cinema amapaenses como formas de registrar memórias e experiências locais.
Antes de partir para a exibição do filme, oriente aos estudantes que o assistam com atenção não apenas à história, mas às sensações provocadas pelas imagens, pelos sons e pelos silêncios presentes na montagem, de modo que eles consigam perceber a obra para além daquilo que veem.
Em seguida, realize a exibição do curta.
b) Câmera – Olhar, escutar, sentir
Objetivos
Analisar criticamente os elementos da linguagem cinematográfica e compreender como o audiovisual pode expressar sentimentos, memórias e identidades coletivas.
Habilidades da BNCC
(EM13LP46) Compartilhar sentidos construídos na leitura/escuta de textos literários, percebendo diferenças e eventuais tensões entre as formas pessoais e as coletivas de apreensão desses textos, para exercitar o diálogo cultural e aguçar a perspectiva crítica.
(EM13LGG502) Analisar criticamente preconceitos, estereótipos e relações de poder presentes nas práticas corporais, adotando posicionamento contrário a qualquer manifestação de injustiça e desrespeito a direitos humanos e valores democráticos.
Mãos à obra
Após a exibição, proponha uma roda de conversa cineclubista, com mediação aberta e horizontal. Alunos que sejam mais ativos podem também fazer essa mediação e propor perguntas para além das que estão descritas abaixo. Nessa mediação, oriente que os estudantes relacionem, em suas respostas, principalmente as sensações que foram despertadas neles durante a exibição do curta. Utilize questões como:
- O ritmo do curta te aproximou ou te afastou da experiência narrada?
- Que relação você percebe entre solidão e território?
- De que forma o filme constrói memória?
- O que é o obstáculo a ser superado pela protagonista?
Caso seja necessário aprofundar a análise de enquadramentos, sons, cores e movimentos de câmera do curta, exiba novamente alguns trechos.
De acordo com a variabilidade que surgir nas respostas, incentive os estudantes a perceberem que não há uma única interpretação correta da montagem, e sim múltiplas leituras possíveis dela.
c) Ação – Do isolamento ao encontro
Objetivos
Promover a experimentação do audiovisual como forma de expressão subjetiva e elaboração sensível das experiências individual e coletiva, por meio da articulação de escrita íntima, da produção de imagens e da reflexão crítica sobre o uso das tecnologias digitais. Buscar estimular a escuta de si e do outro por meio da criação autoral. Compreender o cineclubismo como uma prática educativa, ética e estética, que ajuda a desenvolver, ao mesmo tempo, autonomia criativa, responsabilidade no uso das mídias e pensamento crítico acerca dos processos de produção, mediação e interpretação de conteúdos digitais, incluindo o uso orientado da inteligência artificial (IA).
Habilidades da BNCC
(EM13LGG703) Utilizar diferentes linguagens, mídias e ferramentas digitais em processos de produção coletiva, colaborativa e projetos autorais em ambientes digitais.
(EM13LP15) Planejar, produzir, revisar, editar reescrever e avaliar textos escritos e multissemióticos, considerando sua adequação às condições de produção do texto, no que diz respeito ao lugar social a ser assumido e à imagem que se pretende passar a respeito de si mesmo, ao leitor pretendido, ao veículo e mídia em que o texto ou produção cultural vai circular, ao contexto imediato e sócio-histórico mais geral, ao gênero textual em questão e suas regularidades, à variedade linguística apropriada a esse contexto e ao uso do conhecimento dos aspectos notacionais (ortografia padrão, pontuação adequada, mecanismos de concordância nominal e verbal, regência verbal etc.), sempre que o contexto o exigir.
Habilidades da BNCC Computação
(EM13CO14) Avaliar a confiabilidade das informações encontradas em meio digital, investigando seus modos de construção e considerando a autoria, a estrutura e o propósito da mensagem.
(EM13CO22) Produzir e publicar conteúdo como textos, imagens, áudios, vídeos e suas associações, bem como ferramentas para sua integração, organização e apresentação, utilizando diferentes mídias digitais.
Desenvolvimento de oficina
Primeiro momento – Exibição e sensibilização
A aula inicia-se com as reflexões de Solitude ainda frescas na cabeça dos estudantes e mantém as condições propostas nas etapas anteriores (atenção ao silêncio, ao som e ao ritmo do filme). Oriente os estudantes a observar como o cinema pode transmitir sentimentos, estados subjetivos e atmosferas sem que tenha, necessariamente, de recorrer a diálogos ou explicações diretas.
Segundo momento – Escrita íntima e reflexão
Após a conversa coletiva sobre a linguagem do filme, proponha aos estudantes um exercício individual de escrita: cada um deles deverá escrever uma carta para si mesmo.
Essa carta não será compartilhada publicamente. Nela, os alunos podem registrar, de forma livre e honesta, seus medos, desejos, esperanças, receios, angústias, raivas, conquistas ou conflitos vividos no presente.
Reforce que não há certo ou errado: a carta pertence exclusivamente a quem escreve, e a leitura dela será feita, em silêncio, apenas pelo próprio estudante que a redigiu. Trata-se de um exercício de escuta interior, cuidado consigo e reconhecimento da própria experiência.
Terceiro momento – Criação audiovisual (atividade extraclasse)
Como desdobramento dessas reflexões, oriente os estudantes a levar a experiência da sala de aula para casa: a partir da carta escrita, cada aluno deverá produzir, utilizando o celular, um filme autoral de até um minuto. No caso de haver estudantes que não tenham experiência com montagens ou mesmo possibilidade de fazê-la, você pode auxiliá-los nessa tarefa, utilizando-se de programas de edição simples para finalizar as produções.
O vídeo deve expressar, direta ou indiretamente, os sentimentos presentes na carta. O formato é livre e pode assumir diferentes linguagens:
- experimento visual,
- narrativa sensorial,
- imagens do cotidiano ou do território,
- uso de som ambiente, silêncio ou narração em off.
Não é exigido domínio técnico avançado. O foco está:
- na expressão sensível,
- na autoria,
- na relação entre experiência pessoal e linguagem audiovisual.
Quarto momento – Exibição, partilha e novo olhar
Na aula seguinte, organize uma sessão cineclubista para a exibição dos filmes produzidos pelos estudantes.
Faça a mediação da sessão priorizando o respeito, a escuta e o cuidado, sem obrigar os estudantes a explicarem conteúdos pessoais.
Após a sessão, exiba o curta Solitude novamente, convidando a turma a perceber o filme a partir de um novo olhar – agora, atravessado pelas experiências criativas e afetivas vividas no processo de produção de seus próprios filmes.
O debate final pode abordar questões disparadoras como:
- O que muda quando criamos imagens a partir de nós mesmos?
- Como o audiovisual pode preservar memória e fortalecer a coletividade?
- De que forma seus sentimentos se transformaram ao serem traduzidos em imagens?
III. ATIVIDADE EXTRA COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – IA COMO ESPELHO IMPERFEITO DA EXPERIÊNCIA HUMANA
Proponha que os estudantes participem de uma atividade que será feita com base na utilização de ferramentas de IA. Aqui, elas devem compreendidas não como ferramentas criativas centrais, mas como sistemas automatizados de análise, a serem observados criticamente.
Habilidades BNCC Computação
(EM13CO01) Explorar e construir a solução de problemas por meio da reutilização de partes de soluções existentes.
(EM13CO05) Identificar os limites da Computação para diferenciar o que pode ou não ser automatizado, buscando uma compreensão mais ampla dos limites dos processos mentais envolvidos na resolução de problemas.
(EM13CO14) Avaliar a confiabilidade das informações encontradas em meio digital, investigando seus modos de construção e considerando a autoria, a estrutura e o propósito da mensagem.
(EM13CO17) Construir redes virtuais de interação e colaboração, favorecendo o desenvolvimento de projetos de forma segura, legal e ética.
Cada estudante deverá escrever um texto explicativo (prompt) para a ferramenta de IA de sua escolha, descrevendo:
- quais sentimentos o filme transmite (solidão, silêncio, memória, deslocamento, pertencimento etc.);
- quais emoções, imagens e sensações ele tentou expressar em seu próprio filme, informando que tal montagem foi produzida a partir da carta escrita para si mesmo.
A partir dessa explicação, a IA deverá gerar um texto interpretativo, descrevendo os sentimentos e sentidos que ela identifica, no filme produzido pelo estudante, a partir do prompt fornecido.
Em seguida, o estudante deverá comparar o texto gerado pela IA ao da carta original, refletindo, individualmente ou por escrito, sobre as seguintes questões:
- Quais sentimentos não apareceram ou foram simplificados?
- Houve distorções na interpretação da experiência?
- O que a IA não consegue captar quando se trata de memória, afeto e vivência pessoal?
A proposta não tem como objetivo validar a IA como autora ou intérprete definitiva, mas evidenciar seus limites, reforçando a importância da experiência humana, da subjetividade e da autoria no processo criativo. Ou seja, o esperado é que os estudantes reforcem as limitações da IA diante da memória, do afeto e da vivência subjetiva e que façam comparações críticas.
III. CORTA – ALGUMAS CURIOSIDADES E INDICAÇÕES
- Esta proposta foi pensada para a Escola Estadual Francisco de Oliveira Filho, localizada no distrito do Anauerapucu, no município de Santana (AP) – território marcado por isolamento geográfico, ausência de políticas públicas básicas e forte vivência comunitária.
- O uso do celular como dispositivo de criação é uma forma de reconhecer a realidade dos estudantes e de valorizar a autonomia, a experimentação e a produção que é possível ser feita com os recursos disponíveis.
- Kanau’kyba é uma animação que parte da narrativa da Pedra do Bendegó – maior meteorito já encontrado no Brasil e, ao mesmo tempo, uma expressão que significa “caminhos das pedras” na língua indígena wapichana. A obra articula visualidade e resistência, é marcada pelo contraste entre tons de vermelho e branco e reforça uma mensagem clara: a memória de um povo não pode ser apagada.
IV. SOBEM OS CRÉDITOS
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF, 2018.
EISENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Apresentação, notas e revisão técnica de José Carlos Avellar; tradução de Teresa Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
EISENSTEIN, Serguei Mikháilovitch. Neravnodushnaia priroda: o stroenii veshchei [A natureza não indiferente: sobre a estrutura das coisas]. Moscou: Eisenstein-Center; Museu do Cinema, 2006. t. 2.
ITAÚ CULTURAL. IC Play. Plataforma de streaming gratuito de cinema brasileiro. Disponível em: https://www.itauculturalplay.com.br. Acesso em: 28 ago. 2026.
NAPOLITANO, Marco. Como usar o cinema na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2015.
PATEZ, Alex (org.). Cinema na Amazônia: textos sobre exibição, produção e filmes.
SOLITUDE. Direção: Tami Martins e Aron Miranda. Roteiro: Aron Miranda. Amapá: [s. n.], 2021. 1 vídeo (13 min). Disponível em: https://www.itauculturalplay.com.br/content/movies/solitude. Acesso em: 28 ago. 2026.
MINIBIOGRAFIA DO ELABORADOR
Igor Cardoso é artista visual, cineasta e professor, formado em Artes Visuais pela UNIFAP. Com trajetória ligada à linguagem audiovisual e à mediação social, leciona no Ensino Fundamental e Médio no Amapá, onde vivencia a realidade comunitária em Santana (Anauerapucu). Cofundador do Cine Pupunha (2023) e representante do projeto Cinema em Movimento, atua com exibições, oficinas e debates. Na produção audiovisual, atua em videoclipes e documentários pelas produtoras Wandel Filmes e Ixpia Filmes, realizou o documentário Luz, câmera e fita crepe e dirigiu, produziu e roteirizou o curta-metragem autoral Ausência. Além do cinema, trabalha com pintura e poesia.
O CineAula IC Play é um projeto do Itaú Cultural (IC) que consiste na publicação periódica, aqui no site, de sequências didáticas baseadas em conteúdos da IC Play – nossa plataforma de streaming gratuita –, com o objetivo de promover o diálogo entre educação e cinema a partir de diferentes temáticas e da linguagem audiovisual. A iniciativa prevê o desenvolvimento de materiais educativos para subsidiar o trabalho com filmes disponíveis na IC Play em sala de aula, bem como em contextos análogos, como cineclubes, oficinas e centros culturais, buscando, assim, estimular a fruição audiovisual e valorizar o cinema brasileiro. Além disso, pretende aproximar a arte e a cultura da educação básica, fomentar o pensamento crítico e criativo dos estudantes e estabelecer um diálogo contínuo com professores da educação básica. O projeto foi criado e é coordenado por Camila Fink, Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo.
Conselho editorial Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo
Autoria Igor Cardoso (selecionado via edital)
Edição Marina Nicoli Garcia (terceirizada)
Revisão Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo
Confira aqui as sequências didáticas da primeira edição do CineAula IC Play.
Clique aqui e conheça as demais sequências didáticas da segunda edição do CineAula IC Play.