Acessibilidade

Fonte

A+A-
Alto ContrasteInverter CoresRedefinir
Agenda

CineAula IC Play 2026 #8: Jussara e o poder dos livros

O curta-metragem “Jussara” (2023), de Camila Ribeiro, conta a história de uma mulher negra que encontra inspiração na literatura de autoria feminina

Publicado em 20/10/2026

Atualizado às 16:03 de 20/10/2026

CineAula IC Play – 2a edição
Luz, câmera, educAção: 
o streaming gratuito do cinema brasileiro na sala de aula

por Jonas Ariel Cantaluppi de Souza

Sequência didática #8: Jussara e o poder dos livros

Ficha técnica

Título: 
Jussara
Ano de lançamento: 2023
Direção e roteiro: Camila Ribeiro
Assistência de direção: Iago Ribeiro
Estado: Bahia
Classificação indicativa: livre para todos os públicos 
Gênero: animação 
Duração: 9 minutos
Linguagem: audiovisual (curta-metragem)
Acessibilidade: inclui audiodescrição (narrada por Adriana Urpia), consultoria de acessibilidade cultural pela AD)))arte, legenda para surdos e ensurdecidos (LSE) e língua brasileira de sinais (Libras) com gravação e edição por Sérgio Nunes 
Sinopse: Jussara é uma mulher negra longeva que, devido às experiências adquiridas por toda a sua vida, conta histórias e cuida das pessoas de uma pequena comunidade. Em sua própria biblioteca, com tantos livros e histórias, traz referência a Cora Coralina, Carolina Maria de Jesus, Maya Angelou e outras mulheres que, por sua trajetória de vida, inspiram e encorajam outras a se apoderarem de seu lugar na sociedade. Jussara toma a decisão de se libertar do papel relegado a ela por tantos anos.

Ilustração de animação: vista aérea de um quarto, onde há uma mulher negra deitada em uma cama coberta por edredom azul. Ao redor, móveis de madeira, tapete claro e objetos decorativos no chão de tábuas.
Jussara (2023), de Camila Ribeiro | imagem: divulgação

I. CARTA AO PROFESSOR – O EXERCÍCIO DE CONHECER O OUTRO

Prezado professor e prezada professora, 

Como é de nosso conhecimento, a rotina escolar geralmente está constituída de um grande volume de habilidades, objetos de conhecimento e avaliações, entre outras atividades que demandam um grande esforço tanto dos docentes quanto dos estudantes, o que muitas vezes acaba resultando em cansaço e/ou desinteresse de ambos os lados.

Para os professores, a reinvenção e a insistência diária em metodologias para atrair os estudantes não são uma tarefa fácil – tampouco buscar metodologias ativas e aplicá-las com resultado. Para o lado discente, assistir a aulas teóricas, passar muito tempo sentado e ter um excesso de atividades levam à insignificância do aprendizado. 

Usar metodologias ativas e diferenciadas em sala de aula pode estar mais perto do que imaginamos. É importante entender que não são necessários megaprojetos para que os estudantes obtenham uma aprendizagem significativa; o professor deve apoderar-se corretamente da metodologia, do caminho, da maneira de propor atividades e atrair a turma, do que dizer, bem como do que extrair dos estudantes e, principalmente, do fazer, da ação.

Para auxiliar nesse processo, o CineAula IC Play, do Itaú Cultural (IC), tem o objetivo de auxiliar no letramento e na alfabetização na narrativa audiovisual, buscando despertar criticidade nos estudantes e a valorização do cinema brasileiro por meio de aulas mais leves, além de ser uma oportunidade de alcançar os objetivos docentes de forma lúdica e reflexiva, com a participação de todos, principalmente de quem está no Ensino Médio e na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

O perfil dos estudantes nessas etapas é formado por uma diversidade de idades e trajetórias: cada um carrega consigo experiências heterogêneas e desafios para prosseguir nos estudos, daí a importância de utilizar a narrativa audiovisual como metodologia para aproximar-se dos estudantes e manter uma relação de comunicação assertiva com eles. Conhecer suas histórias causa proximidade e propicia um ambiente de confiança entre professor e estudante; entendemos que a aprendizagem, a criatividade e a criação só ocorrem nessas condições.

O curta-metragem Jussara foi produzido na Bahia em 2003 e ganhou prêmios como o de “Melhor roteiro” no 16o Curta Taquary (BA). Selecionado para grandes eventos, como o Festival de Gramado (RS), a Mostra de Tiradentes (MG), o Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM) e o Festival de Cinema Baiano (Feciba), representa essa diversidade de trajetórias de vida que se entrelaçam em nosso cotidiano, por meio da personagem principal – uma senhora longeva negra que, carregada de experiências, ocupa o lugar, em sua comunidade, de cuidar de crianças, jovens e idosos, sendo conhecida na vila pela contação de histórias, pelo apoio e pela ajuda que oferece aos demais.

A obra também faz referência a outras mulheres brasileiras que contribuíram para o movimento feminista e deram visibilidade a papéis subalternos da sociedade, já que, por sua trajetória de vida, deram voz a mulheres que são duplamente excluídas: por um lado, pelo fato de serem mulheres em uma sociedade patriarcal e machista; e, por outro, por serem negras, idosas e vulneráveis.

Por estarmos em contato com a multiplicidade identitária e cultural nas escolas, nos clubes, nos bairros ou na própria rede que tece as relações em que nos envolvemos, é importante compreender como se dão essas relações políticas da vida. Conhecer o outro é a base para que haja respeito mútuo e convivência pacífica numa sociedade tão diversa como a brasileira. 

Sigamos esta reflexão: a quem cabe a responsabilidade de cuidar dos demais? Imagine uma mulher negra que viveu muitos anos levando consigo experiências e relatos por onde passou e que, ao longo do tempo, ocupa um papel importante na comunidade em que vive, consolando pessoas por meio da contação de histórias e experiências de vida. Sabemos que a formação de nosso ser resulta da experiência dos outros, que a nossa trajetória é feita a partir do outro, ou seja, uma cultura se faz a partir da outra.

Aqui cabe um ponto principal para refletir sobre a posição que historicamente, no Brasil, as minorias femininas ocupam na sociedade. Infelizmente, espera-se das mulheres, principalmente negras e mais velhas, o papel de cuidar dos mais jovens ou de limitar-se aos afazeres domésticos – mas essa mulher negra e longeva também tem necessidades, como é o caso de Jussara, personagem principal do curta-metragem. Em certo momento, ela percebe que precisa se libertar após dedicar grande parte de sua vida a essa posição que lhe impuseram. 

Esta sequência didática poderá ser adaptada de acordo com as necessidades e demandas da turma. Propõe-se uma série de atividades que inclui organização do espaço e execução, sensibilização, prática, devolutiva e avaliação ao final da sequência, além de uma atividade interdisciplinar para trabalhar a produção audiovisual. Lembre-se que a necessidade de adaptar este plano de ação será determinada por você.

Cena em animação que retrata uma mulher negra, vestida de branco, segurando livros em meio a pilhas de publicações que ocupam um espaço estreito, repleto de estantes. A composição apresenta traços de aquarela em tons suaves e terrosos.
Jussara (2023), de Camila Ribeiro | imagem: divulgação

II. PLANO-SEQUÊNCIA

a) Luz – Um momento especial

Objetivos

Estimular a escuta sensível e o pensamento crítico por meio de reflexões sobre temas como gênero, memória e identidade cultural, além de promover uma discussão sobre a relação dos estudantes com o cinema.

Habilidades da BNCC

(EM13LGG602) Fruir e apreciar esteticamente diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, assim como delas participar, de modo a aguçar continuamente a sensibilidade, a imaginação e a criatividade.

(EM13LP20) Compartilhar gostos, interesses, práticas culturais, temas/ problemas/questões que despertam maior interesse ou preocupação, respeitando e valorizando diferenças, como forma de identificar afinidades e interesses comuns, como também de organizar e/ou participar de grupos, clubes, oficinas e afins.

Mãos à obra

Para iniciar os trabalhos, deve-se relacionar as habilidades e o objeto de conhecimento que se pretende alcançar com o curta-metragem. Sugere-se trabalhar conceitos de lugar, memória, gênero, análise narrativa, cultural e digital, bem como análise de recursos linguísticos e audiovisuais (padrões visuais, sons, diálogos), para discutir identidade cultural.

Após ver com clareza essa relação, assista ao curta-metragem observando os elementos que deseja evidenciar; por se tratar de apenas nove minutos de produção, explore cada detalhe com atenção. Em seguida, anote os aspectos que mais se destacaram e imagine como eles podem pode ser aplicados aos conceitos ou à discussão iniciada em sala de aula, contextualizando-os com a realidade local.

Sensibilize os estudantes. Que tal iniciar falando do cinema em geral? Pergunte a eles qual é sua relação com o cinema como arte e qual gênero preferem. Indague se alguma produção afetou suas vidas. Você também pode falar sobre o papel do cinema e de categorias como curta-metragem, assim como apresentar a modalidade e o gênero da obra que será apresentada. Deve-se ressaltar aos estudantes que o gênero de animação não é “desenho infantil”; inclusive, essa ideia de mostrar as produções de animação além do desenho é um dos objetivos da equipe produtora de Jussara.

É importante submergir a turma na temática do curta antes de sua exibição: deve existir um diálogo entre professor e estudantes sobre como nossa vivência está constituída por agentes tanto naturais quanto culturais. Incentive-os a recordar de seus lugares afetivos, de cheiros, pessoas, familiares, amigos de infância, de uma anedota e, por que não, de uma pessoa que contava histórias.

Essas lembranças podem estar ligadas a um passado remoto ou inclusive à atualidade. Não se deve esquecer que, além das grandes cidades, caracterizadas por prédios e uma vida mais fluida, o Brasil ainda tem muitas vilas, comunidades pequenas e bairros em cidades que possuem essa característica de promover relações mais próximas.

Trabalhar em equipe é sempre melhor – para não dizer imprescindível nos dias de hoje. Converse com algum professor que se interesse em trabalhar de forma interdisciplinar ou multidisciplinar. Às vezes, uma aula de 50 minutos não é suficiente para exibir e discutir o filme; que tal convidar professores que ministram aulas que conversam com a sua? Ganha-se uma parceria e tempo!

Além disso, devem ser assegurados o espaço e o deferimento e acompanhamento da coordenação escolar para a realização da atividade. Lembre-se de anotar perguntas para iniciar a roda de conversa caso não haja engajamento por parte dos estudantes e seja necessário “quebrar o gelo”. Algumas sugestões para isso constam na seção “Câmera”.

Prepare um ambiente que possa simular uma sala de cinema: escureça o ambiente, busque uma projeção grande, faça um banner para a entrada da sala – se possível –, coloque uma música para recepcionar a turma e tente buscar uma parceria com as cozinheiras da escola para oferecer pipoca. Enfim, o momento deve ser especial!

Pode-se utilizar este checklist: 
- Trabalhar as habilidades previamente.
- Ver se a sequência didática será exequível.
- Buscar parceiros (coordenadores, professores).
- Verificar o ambiente de exibição.
- Relacionar os elementos que farão parte da exibição [projetor, telão, (sugere-se uma parede branca, pois é uma maneira fácil de projetar e ampliar a imagem como em um cinema), cadeiras, caixa de som].
- Se possível, oferecer pipoca, distribuindo-a antes de dar o play.

Oriente os estudantes sobre seu comportamento durante a exibição, para que observem o filme com atenção e não se distraiam em hipótese alguma, mantendo-se em silêncio – aponte que eles podem fazer comentários após a exibição, e não durante, pois a alfabetização e o letramento audiovisual se iniciam com habilidades comportamentais e atitudinais.

Convidados preparados para assistir ao filme, boa sessão!

b) Câmera – Teia de histórias

Objetivos

Analisar criticamente os elementos da linguagem cinematográfica e compreender como o audiovisual pode expressar sentimentos, memórias e identidades coletivas. Compartilhar questões com os demais colegas.

Habilidades da BNCC

(EM13LP20) Compartilhar gostos, interesses, práticas culturais, temas/ problemas/questões que despertam maior interesse ou preocupação, respeitando e valorizando diferenças, como forma de identificar afinidades e interesses comuns, como também de organizar e/ou participar de grupos, clubes, oficinas e afins.

(EM13LGG502) Analisar criticamente preconceitos, estereótipos e relações de poder presentes nas práticas corporais, adotando posicionamento contrário a qualquer manifestação de injustiça e desrespeito a direitos humanos e valores democráticos.

Mãos à obra

Chegou a hora da exibição. Se houver banner ampliado da obra, coloque-o na entrada da sala. A ilustração nele, feita em aquarela e técnica mista, é um convite a se deleitar com a produção. Explique aos espectadores o que é uma sinopse e leia a do filme Jussara. Oriente-os a observar na tela os elementos de fundo, as paisagens e os sons sem se distrair. Peça que prestem atenção na fala da personagem para uma análise posterior.

Cuidado com spoilers ou comentários que possam induzir a determinada interpretação do curta – este possui uma temática central, mas cabe a cada um interpretar e absorver obras de arte de forma subjetiva e ser tocado de forma individual.

O pôster apresenta uma ilustração em aquarela de uma casa rústica de madeira, cercada por árvores e pedras, com uma personagem sentada à entrada e pássaros ao céu. Em fundo claro, destaca-se o título “Jussara”.
Jussara (2023), de Camila Ribeiro | imagem: divulgação

Após a exibição, perceba se houve entendimento e apreciação de fato. Caso seja necessário, repita a exibição para que os estudantes atentem a detalhes que não haviam observado antes. Sugere-se que haja uma roda de conversa inicial no mesmo espaço – organizando as cadeiras em círculo – ou em um lugar tranquilo no pátio da escola, onde possam conversar, sem se dispersar, sobre as impressões que tiveram da obra. 

Cuidado para não induzir nos estudantes recordações muito pessoais ou negativas que possam envergonhá-los ou constrangê-los. Esta atividade busca aquecer e preparar a turma para a criação e o exercício de ver o filme com criticidade e reflexão. É importante que ainda não exploremos a história de cada um nem lembranças e memórias, pois essa habilidade será trabalhada na seção “Ação”.

Você pode iniciar a conversa contando suas impressões e falando da obra, de suas composições e da personagem. Em seguida, conduza o bate-papo com base nestas questões:

- O que achou do curta-metragem, dos filmes curtos?
- Você acredita que eles também seguem a sequência de um longa-metragem?
- Onde vive Jussara?
- Para você, qual é a história da protagonista? Ela tem filhos, marido? Com quem mora?
- Já houve alguém como Jussara na sua vida? Poderia nos contar quem é essa pessoa?
- Você acha que as histórias de outras pessoas podem afetar as nossas vidas?
- Por que Jussara queria se libertar?
- Por que ela tinha uma biblioteca em casa?
- Por que soprou os livros para o céu e abriu os braços?
- Você acha que às vezes podemos estar presos em nossa própria história? De que forma? Como poderíamos libertar-nos?
- Como são vistas as mulheres mais idosas em nossa sociedade? O que se espera delas?
- Qual era o papel das mulheres negras na sociedade colonial?
- Na atualidade, houve muitas mudanças em relação ao lugar que elas ocupam na sociedade, principalmente as mais longevas?
- Além de dar conselhos, ficar em casa e cuidar dos netos (ou outras respostas que possam surgir), quais papéis elas poderiam ocupar na atualidade, mesmo sendo longevas?

Lembre-se de extrair de cada um o máximo de fala possível; para isso, transmita tranquilidade, confiança e domínio da atividade. Se o estudante tiver dificuldade de se expressar, escreva as perguntas em folhas coloridas, brancas ou papel manilha, disponibilizado pela escola, coloque-as no centro da roda e peça a cada estudante que pegue uma pergunta, leia-a e responda-a para o grupo.

Finalize dizendo que a próxima etapa é a parte prática, realizada em outra aula ou outro espaço, previamente preparado. Essa atividade se chama Teia de Histórias. A sala deve conter cadeiras em círculo e novelos de lã ou barbante coloridos – pode ser de duas ou três cores – no centro da roda, para despertar curiosidade. Não corte os fios, pois a intenção é criar uma teia de histórias e relações, e não revele para que será usado o barbante ou a lã. Na lousa, pode-se escrever frases motivacionais relacionadas ao assunto. Também pode-se colocar uma música de fundo para criar um ambiente mais receptivo.

Cena em animação mostra uma mulher negra concentrada na leitura de um livro, vista entre fileiras de livros em uma estante.
Jussara (2023), de Camila Ribeiro | imagem: divulgação

c) Ação – Assim como Jussara

Objetivos

Buscar estimular a escuta de si e do outro. Desenvolver a responsabilidade no uso das mídias e o pensamento crítico acerca dos processos de produção, mediação e interpretação de conteúdos digitais, incluindo o uso orientado da inteligência artificial (IA).

Habilidades da BNCC

(EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos. 

(EM13LP23) Analisar formas não institucionalizadas de participação social, sobretudo as vinculadas a manifestações artísticas, produções culturais, intervenções urbanas e formas de expressão típica das culturas juvenis que pretendam expor uma problemática ou promover uma reflexão/ação, posicionando-se em relação a essas produções e manifestações. 

Habilidades da BNCC Computação

(EM13CO14) Avaliar a confiabilidade das informações encontradas em meio digital, investigando seus modos de construção e considerando a autoria, a estrutura e o propósito da mensagem.

(EM13CO22) Produzir e publicar conteúdo como textos, imagens, áudios, vídeos e suas associações, bem como ferramentas para sua integração, organização e apresentação, utilizando diferentes mídias digitais.

Convide os estudantes a participar da roda. Explique que cada um deverá pegar o fio e responder a algumas perguntas, que podem estar anotadas na lousa ou em um cartaz. O objetivo é que conheçam os colegas através de suas histórias e relatos, para entender que dependemos dos outros, enfatizando o apoio mútuo, e que nossas trajetórias se cruzam, bem como que identifiquem a diversidade e a multiplicidade local.

Sugere-se que eles respondam estas perguntas: 
- Qual é seu nome?
- E sua idade?
- Você conheceu ou conhece alguém como a personagem Jussara?
- Quais memórias o filme resgatou em você? (Se alguém tiver vergonha e quiser contar depois, de modo privado, pode procurar o professor.)
- Você acredita que teria muitas histórias para contar que ajudariam as outras pessoas? 

Quando um estudante terminar a fala, deve segurar a ponta do fio e passar o novelo para outra pessoa, e assim consecutivamente. É importante que esse movimento seja realizado de maneira que forme uma teia. Quando um fio chegar ao fim, utilize outra cor para seguir a atividade e obter um resultado colorido.

Após a fala de toda a turma, faça as considerações finais explicando que as teias representam as histórias e vivências de cada um, como no curta-metragem: nós nos encontramos e nos desencontramos diariamente com experiências e vidas diferentes das nossas, daí as cores diferentes. Você também pode pedir que puxem o fio cada um para seu lado, dando a impressão de força da colaboração.

Nesse momento, solicite que cada estudante abaixe o fio aos poucos para representar os desafios que enfrenta na vida. Desse modo, eles perceberão que a teia vai se afrouxando, indicando a necessidade de permanecerem nas relações de forma coletiva e ajudarem-se mutuamente.

Esta atividade ajuda o grupo a se conhecer e revela que, assim como Jussara, temos necessidades individuais e devemos dar atenção a elas. Além de pensar no outro, precisamos nos colocar na pauta de cuidados, tanto mental quanto corporal, social e em outras dimensões.

Cena em animação que retrata uma pessoa subindo uma escadaria em direção a uma casa azul de telhado de barro, cercada por árvores, cactos e pedras. A composição em aquarela apresenta cores vibrantes e uma paisagem rural.
Jussara (2023), de Camila Ribeiro | imagem: divulgação

A seguir há mais sugestões de atividades interdisciplinares ou multidisciplinares para ampliar e trabalhar as habilidades da BNCC e da BNCC Computação. Não é necessário criar habilidades extras nem projetos longos; pode-se utilizar as habilidades da área propedêutica.

Uma sugestão para trabalhar o componente curricular de língua portuguesa com o de história é treinar a escrita: peça ao estudante que escreva as memórias despertadas pela atividade ou a própria autobiografia no caderno ou em uma folha avulsa – o texto não precisa ser muito extenso. Caso haja cumplicidade e confiança no grupo, oriente que cada um deixe seu trabalho sem assinar e o coloque em uma caixa. Um a um, os estudantes devem pegar um texto que não seja da própria autoria, ler a história e tentar adivinhar de quem é. Esta atividade pode ser feita ao ar livre (debaixo de árvores em uma praça, por exemplo).  

Para contemplar a BNCC Computação, pode ser proposta, por exemplo, a criação de um podcast semanal pelos integrantes da turma. Em grupos, eles devem pesquisar sobre uma pessoa para relatar histórias de vida dela – também pode ser algum conhecido e/ou alguém interessante na cidade, comunidade ou bairro, desde que seja autorizado o compartilhamento de sua história – e se organizar para que cada um cuide de uma etapa de produção do podcast. O levantamento de informações pode ser em forma de entrevista ou a própria pessoa escolhida pode contar sua história. Cabe ao professor decidir se o trabalho se restringirá ao âmbito escolar, para manter a privacidade dos dados.

Já no componente curricular de arte, pode-se dar vida às histórias por meio das artes cênicas, criando-se até mesmo uma peça de teatro caso o trabalho fale de alguém muito querido e admirado na comunidade. Outra proposta é representar as escritoras citadas na cena da biblioteca de Jussara: enquanto em arte se elaboram os cenários e a interpretação, em língua portuguesa a equipe escreve o roteiro, com a correção do texto feita pelo professor.

Em geografia, podem ser exploradas as belas paisagens apresentadas no curta-metragem, focando-se, por exemplo, nas formas de relevo. No 1o ano do Ensino Médio, pode-se aprofundar o estudo dessas formas, proponha aos estudantes que observem determinada paisagem do filme e tentem descobrir de que região ela é. Nesta atividade, investigação também se incorpora ao trabalho e à iniciação científica.

Com a ajuda do professor, os estudantes podem tentar localizar a diretora do curta, Camila Ribeiro, e agendar uma entrevista com ela, para esclarecer dúvidas e ajudar na investigação. Essa atividade desenvolve a capacidade de buscar e encontar informações, dados e pessoas, conectando-se com a realidade do mundo material.

Já nos componentes curriculares de sociologia e filosofia, pode-se solicitar aos estudantes que observem com atenção a cena onde Jussara está rodeada de livros de autoras renomadas e referenciadas na produção. Entender suas obras a partir de uma pesquisa bibliográfica poderá resultar na elaboração de cartazes ou de um seminário sobre essas mulheres, como detalhado a seguir.

Observe quanta riqueza há na cena acima, que faz referência a escritoras consagradas, como Ana Maria Gonçalves, Cora Coralina, Carolina Maria de Jesus e Maya Angelou. Peça à turma que pesquise sobre cada uma delas, a fim de criar cartazes com o nome das autoras e frases de impacto que reflitam suas obras e sua importância no campo filosófico. Se houver interesse na realização de um seminário, algumas estudantes podem representar as escritoras em uma mesa-redonda e conversar, por exemplo, sobre suas respectivas abordagens a respeito da mulher brasileira.

Ilustração de animação: vista aérea de um quarto, onde há uma mulher negra deitada em uma cama coberta por edredom azul. Ao redor, móveis de madeira, tapete claro e objetos decorativos no chão de tábuas.
Jussara (2023), de Camila Ribeiro | imagem: divulgação

Uso de inteligência artificial e tecnologia

A inteligência artificial (IA) também pode ser utilizada para realizar atividades inspiradas em Jussara. Por exemplo, por meio de um prompt de comando com informações sobre o lugar onde cada estudante vive, as pessoas, os cheiros e as amizades que fizeram parte de sua trajetória – além da pessoa que lhe contava histórias, se for o caso –, pode-se solicitar um pequeno texto sobre sua infância. Depois, alterando lugares e idades em outro prompt, serão obtidos novos resultados, e todos podem ser compartilhados com os colegas. 

Outra opção é o Padelt, ferramenta de colaboração digital que funciona como um quadro de avisos on-line, permitindo que os usuários insiram e organizem informações e as compartilhem. Crie uma sala e envie o link aos estudantes, que deverão escrever um relato sobre onde vivem ou enviar fotografias do local. As respostas aparecem para todos de forma instantânea, o que propicia uma ótima experiência. 

Esses são só alguns exemplos de como podemos nos apropriar das produções audiovisuais e dar outro sentido às aulas. Trabalhar com os instrumentos oferecidos pelo IC e pela Fundação Itaú – como o projeto Ocupação, a Escola Fundação Itaú, a Enciclopédia Itaú Cultural e os perfis da organização no YouTube, no Spotify e no Issuu – faz com que as aulas sejam mais atrativas, dinâmicas, divertidas e abertas ao diálogo e à ressignificação dos componentes curriculares, despertando nos estudantes um olhar mais amplo e aprofundado sobre os estudos e a vida.

III. CORTA – SUGESTÕES NA MESMA TEMÁTICA

- Em “Memórias em movimento”, outra sequência didática do CineAula IC Play, Jefferson Cabral propõe atividades com base em Moventes, filme do qual é diretor e que trata da migração de uma família nordestina para São Paulo.

-
Disponível no YouTube, o vídeo Raça, clima e futuros possíveis mostra como modelos de produção insustentáveis intensificam a crise climática, afetando principalmente as periferias. Também são exploradas alternativas sustentáveis inspiradas em saberes indígenas e africanos.

-
A dissertação de mestrado No soy de aqui, ni de allí. Yo soy!: identidade territorial na fronteira entre Pedro Juan Caballero – Paraguai e Ponta Porã – Brasil discute a multiplicidade identitária na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Aqui pode-se ampliar e entender os conceitos de território e identidade. O documento está disponível em: https://repositorio.ufgd.edu.br/jspui/bitstream/prefix/1171/1/JonasArielCantaluppideSouza.pdf. Acesso em: 12 ago. 2026.

IV. SOBEM OS CRÉDITOS

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_20dez_site.pdf. Acesso em: 23 fev. 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: computação – complemento à BNCC. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/escolas-conectadas/BNCCComputaoCompletodiagramado.pdf. Acesso em: 23 fev. 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. Filme na sala de aula: aprendizado para a vida. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/implementacao/praticas/caderno-de-praticas/ensino-fundamental-anos-iniciais/83-filme-na-sala-de-aula-aprendizado-para-a-vida. Acesso em: 18 ago. 2026.

CABÍRIA – Prêmio de Roteiro. Jussara (2023). Base de Dados Cinematográfica. Disponível em: https://www.cabiria.com.br/cabiria-filmes/jussara/. Acesso em: 18 ago. 2026.

DELIZOICOV, D.; ANGOTTI, J. A.; PERNAMBUCO, M. M. (2002). Ensino de ciências: fundamentos e métodos. [Metodologia dos Três Momentos Pedagógicos aplicada a cinema educativo]. 2. ed. São Paulo: Cortez Editora, [s.d.].

MIRÁ – Núcleo de Animação [Universidade Federal da Bahia (UFBA)]. Jussara (2023). Acervo de Animação. Disponível em: https://miraeba.com.br/acervo-mira/jussara-2/. Acesso em: 18 ago. 2026.

MINIBIOGRAFIA DO ELABORADOR

Jonas Ariel Cantaluppi de Souza possui graduação em geografia pela Faculdade de Ponta Porã (MS). É especialista em Educação para a Infância: Educação Infantil e Séries Iniciais pelas Faculdades Integradas do Vale do Ivaí (PR) e tem mestrado em geografia pela Universidade Federal da Grande Dourados (MS). É autor do livro didático Um olhar fronteiriço (2020); possui experiência no ensino de geografia no Ensino Fundamental (anos iniciais e finais), no Ensino Médio, na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e em projetos culturais; e realiza pesquisa nas áreas de território, identidade, migração e fronteira.

O CineAula IC Play é um projeto do Itaú Cultural (IC) que consiste na publicação periódica, aqui no site, de sequências didáticas baseadas em conteúdos da IC Play – nossa plataforma de streaming gratuita –, com o objetivo de promover o diálogo entre educação e cinema a partir de diferentes temáticas e da linguagem audiovisual. A iniciativa prevê o desenvolvimento de materiais educativos para subsidiar o trabalho com filmes disponíveis na IC Play em sala de aula, bem como em contextos análogos, como cineclubes, oficinas e centros culturais, buscando, assim, estimular a fruição audiovisual e valorizar o cinema brasileiro. Além disso, pretende aproximar a arte e a cultura da educação básica, fomentar o pensamento crítico e criativo dos estudantes e estabelecer um diálogo contínuo com professores da educação básica. O projeto foi criado e é coordenado por Camila Fink, Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo.

Expediente desta sequência didática
Conselho editorial Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo
Autoria Jonas Ariel Cantaluppi de Souza (selecionado via edital)
Edição Rachel Reis (terceirizada)
Revisão Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo

Confira aqui as sequências didáticas da primeira edição do CineAula IC Play.

Clique aqui e conheça as demais sequências didáticas da segunda edição do CineAula IC Play.

Compartilhe