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Claudio Rubino, Arcano do Acesso

Artista e consultor está presente em dois momentos do "\\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026"

Publicado em 08/05/2026

Atualizado às 14:20 de 08/05/2026

Claudio Rubino faz parte da história do || entre ||, já tendo participado do evento em edições passadas como mentor de artistas. Neste novo \ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026, seu nome aparece duas vezes na programação: Como mediador da mesa Acessibilidade estética: a linguagem expandida dos corpos e, desta vez, também como artista, com sua obra Tarô Aleijo.

Seu envolvimento veio a partir de sua atuação profissional: Claudio é consultor em acessibilidade cultural, com mais de 25 anos de experiência em projetos que integram acessibilidade, estética e crítica institucional. Não à toa, é referência também nos debates sobre cultura def.

“O trabalho como mentor de artistas no \\ENTRE\\ fortaleceu demais a minha percepção sobre a arte def”, conta ele, “o contato com pessoas de diferentes regiões do Brasil com linguagens artísticas diferentes me mostrou que há um eixo muito importante de se perceber na cultura def: A presença dos nossos corpos evoca uma dissidência. Há uma formulação de coletivo muito importante que acontece por iniciativas como o \\ENTRE\\”.

Um autorretrato vertical em plano médio mostra um homem de pele clara e barba longa e escura. Ele veste um turbante ocre, roupas pretas e diversos colares prateados de estilo étnico. Seus braços estão cobertos por tatuagens coloridas e o pulso exibe várias pulseiras de pedras. Com a mão esquerda, ele segura contra o peito uma carta de tarô com ilustrações em preto e branco que destacam uma mão com um olho. Seus olhos estão realçados por maquiagem preta, e ele encara a câmera com expressão enigmática. O fundo é de um tom cinza-azulado sólido
Claudio Rubino (imagem: Claudio Rubino)

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Acessibilidade estética em pauta

Em 07 de maio, às 18h, Claudio Rubino fará a mediação na mesa Acessibilidade estética: a linguagem expandida dos corpos, da qual participam os atores Moira Braga e Giovanni Venturini. “São duas pessoas extremamente importantes na construção do meu referencial de arte”, conta ele, “é muito prazeroso poder falar com eles sobre um tema do qual eles são fontes para meu trabalho”.

“Falar de acessibilidade estética com eles será extremamente significativo, pelo que construíram em seus espetáculos e por serem referências que eu busco transbordar para as minhas criações agora”, explica Claudio, “em Tarô Aleijo, trago a corporeidade dessa sensorialidade que não é uma transposição imediata do que é visual para o que é de locução e auditivo, ou o que é verbal para Sinais. Não é essa a proposta. Os trabalhos que Giovanni e Moira desenvolvem estão em um outro lugar sensorial que é não cartesiano”.

Essa ideia perpassa o próprio conceito da produção de arte def - não seguir uma normatividade imposta, já que cada criação artística se relaciona também com a identidade de quem a criou. “Giovanni, tem uma forma de acessibilidade estética, Moira tem outra”, comenta ele, “não existe um protocolo, ou uma cartilha usada por todos. Ela acontece a partir de suas evocações artísticas. Por isso é que se cria de fato acessibilidade estética. Me dá muita alegria poder participar dessa mesa”.

Homem de pele parda e barba escura, sentado à frente de uma mesa de tarô. Ele veste preto, usa um lenço colorido na cabeça e possui diversas tatuagens nos braços. Sua expressão é animada, com olhos arregalados e um leve sorriso. Sobre a mesa com toalha estampada, há uma esfera de luz branca intensa, cristais e uma tigela tibetana. Ao fundo, uma projeção desfocada exibe cartas de tarô em tons de azul e verde. A iluminação é dramática, destacando a figura do homem contra o cenário escuro. No canto esquerdo, há flores vermelhas presas a um suporte.
Tarô Aleijo, de Cláudio Rubino (imagem: Cacá Bernardes/Bruta Flor Filmes)

Performance e interação

Arcano Rubino é a persona criada por Claudio para sua obra Tarô Aleijo, que será apresentada no sábado, 09 de maio, às 18h. O espetáculo propõe uma cartomancia performática que se utiliza da linguagem do tarô reimaginada com ilustrações pertencentes ao universo da cultura def - como a cega, o médico, o autista, a mãe de def e a cadeira de rodas, por exemplo.

“Redesenhei todas as cartas com significados e atribuições próprias pertinentes às discussões que temos sobre acessibilidade e cultura def, trazendo uma perspectiva mais urgente do que ideias como ‘inclusão’ e ‘acesso’”, conta o artista, “são cartas que propõem um posicionamento crítico”.

O Arcano Rubino pode trazer provocações que não cabem a Claudio, enquanto consultor de acessibilidade. “Ele convida as pessoas a se sentarem à mesa como consulentes, e as cartas se revelam a partir de uma pergunta conduzida de forma a pensar quais as práticas de acessibilidade e de anticapacitismo que essa pessoa tem”, comenta ele, “Arcano Rubino lê a carta na hora e devolve para a plateia em uma convocação imediata da pessoa se posicionar”.

“É uma obra interativa, e as pessoas se envolvem bastante. Em alguns momentos, elas não sabem se sou mesmo um cartomante, e acreditam mesmo nas previsões. Algumas que participaram da performance ficaram com olhos marejados, e eu tenho que lidar com as emoções que transbordam ali enquanto o Arcano do acesso”.

Fotografia em plano médio de um homem durante uma performance. Ele tem pele clara com barba longa e escura, vestindo um turbante ocre e roupas pretas. Seus braços estão tatuados e ele usa diversos colares prateados e acessórios nas mãos. Ele está sentado, gesticulando com as mãos abertas enquanto olha para o lado com um leve sorriso. À esquerda, em primeiro plano, há uma mesa com uma bola de cristal iluminada e flores roxas. Ao fundo, uma projeção desfocada mostra cartas de tarô. A iluminação é quente e teatral
Tarô Aleijo, de Claudio Rubino (imagem: Cacá Bernanrdes)

Um só eixo

A mesa e a performance que Claudio Rubino realizará no \\ENTRE\\ têm em comum não apenas o tema, mas também a troca com o outro - seja pelo debate direto ou pela interação durante o espetáculo. Ele aponta essa característica como de grande relevância para artistas def.

“Bom, primeiro, é preciso destacar a importância da convivência entre pessoas com deficiência que estão nessa proposição de criação e reflexão crítica sobre o seu posicionamento profissional e artístico no mundo”, explica Claudio, “isso é importante porque o nosso desenvolvimento enquanto humanos, independentemente de nossas características, se dá a partir da convivência com o outro. E essa troca se fortalece quando encontramos pares para refletir: Pessoas que têm semelhanças não apenas físicas, mas em processos de lutas e em propósitos investigativos semelhantes aos nossos, atuando na arte através de vertentes e referenciais diversificados. Quando estamos próximos, falamos sobre os nossos processos criativos e também sobre os nossos perrengues nessa cadeia produtiva da cultura, onde as nossas produções muitas vezes são subjugadas a uma referência temática ou simplesmente não entram em um circuito”.

“Então, quando estamos juntos em uma das maiores instituições culturais da América Latina e do mundo,  através do financiamento que o Itaú Cultural oferece para promover um festival como o \\ENTRE\\, vivenciamos um processo de compartilhamento das construções possíveis dessas políticas culturais para fomentar a produção dos nossos trabalhos artísticos. Essa luta pela conquista e pelo reconhecimento dentro do fluxo da arte, no geral, se dá por muita resiliência e resistência. E não digo isso num contexto romântico de que ‘a pessoa com deficiência luta, o artista com deficiência luta’. Nós lutamos muito mesmo, a carga que carregamos é grande demais. Por isso, quando nos encontramos, é também uma forma de despressurizar tudo isso, reunindo, como eu disse, referenciais de caminhos distintos, mas dentro desse mesmo eixo que é a arte”.

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