Sob esse ritmo afro-amazônico, espetáculo do Grupo Jurubebas de Teatro propõe um mergulho na encantaria e nas denúncias sociais do interior do Amazonas
Publicado em 01/06/2026
Atualizado às 18:00 de 29/05/2026
Os sons do ritmo gambá de Borba – que ecoam nas beiras do Rio Madeira, interior do Amazonas – ganharam uma nova tradução no espetáculo A ilha profana do Cantagalo, projeto inscrito por meio de edital público para a edição 2023-2024 do programa Rumos Itaú Cultural e por ele contemplado. Proposta pelo Grupo Jurubebas de Teatro, a peça foi o resultado de uma imersão profunda na comunidade ribeirinha de Acará, no município de Borba (AM), unindo a pesquisa acadêmica de campo à mística das lendas amazônicas.
● Origem: nasceu do encontro entre os indígenas da etnia Mura e os cabanos (pessoas negras que fugiram da repressão no século XIX).
● Influências: foi influenciado por uma complexa partitura, que funde o tambor de mina, o ganzá e instrumentos indígenas como o trocano.
● Espiritualidade: os participantes, chamados de gambazeiros, honram São Benedito, integrando crônicas do cotidiano florestal à roda de dança.
A narrativa acompanha a jornada de um menino que descobre ser neto de uma rasga-mortalha (lenda ligada à morte). A criança parte em busca de seus pais, que estariam em uma ilha encantada no fundo do rio. Embora a estética utilize elementos do Festival de Parintins e adereços que remetem à fauna (cobras e iguanas), o subtexto é rigorosamente sociopolítico.
O Grupo Jurubebas estruturou o projeto sob eixos que evitam o “olhar colonizador”, priorizando o pertencimento da comunidade de Acará no processo criativo. Os desafios dessa tradução cênica incluíram:
· Relação com a tradição: o trânsito da música e dança do Gambá para a linguagem teatral.
· Denúncia social: a transformação do mito em ferramenta de crítica sensível sobre os corpos do Norte.
Ao transpor os saberes do Rio Madeira para a cena, o coletivo não apenas documentou uma tradição, mas estabeleceu o teatro como um espaço de diálogo entre a ancestralidade e as urgências do presente. O projeto reafirmou a importância de descentralizar as narrativas amazônicas, permitindo que a própria comunidade do Acará se reconheça como protagonista de suas histórias e denúncias.