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O Brasil não conhece “Brasiliana”

Documentário de Joel Zito Araújo sobre importante companhia de dança do século 20 chega à plataforma Itaú Cultural Play

Publicado em 13/02/2026

Atualizado às 14:56 de 13/02/2026

por André Felipe de Medeiros

As cores das fantasias, o samba pulsante que anima a festa e os corpos carnavalescos envolvidos por ambos: o mundo inteiro sabe que o maior espetáculo da terra é brasileiro. Em 13 de fevereiro, véspera de Carnaval, chega à Itaú Cultural Play um filme que explica a origem da popularidade no mundo inteiro do que se tornou o maior feriado do Brasil: Brasiliana O musical negro que apresentou o Brasil ao mundo, de Joel Zito Araújo, premiado como Melhor Filme no 17º In-Edit Brasil em 2025.

O documentário conta a história da Companhia de Teatro, Dança e Música Brasiliana, um grupo que, entre as décadas de 1950 e 1970, percorreu mais de 90 países e se apresentou nos palcos mais prestigiados do globo. O espetáculo “foi um grande acontecimento cultural do Brasil no exterior”, explica o diretor, “um dos responsáveis por uma construção de imagem simpática do país”.

Diante de sua relevância, surge a pergunta: por que seu trabalho não é tão conhecido por aqui? “Porque o país e sua elite achavam que era uma vergonha ter um grupo de negros apresentando o Brasil a partir de sua negritude, de seus corpos negros, de sua beleza e de sua história”, responde Joel.

Invisibilidade

Fundada em 1949, a gênese da companhia Brasiliana remonta ao Teatro Folclórico Brasileiro (TFB), idealizado por jovens intelectuais como Haroldo Costa, que buscavam uma plataforma de expressão autêntica inspirada pela base ideológica do Teatro Experimental do Negro (TEN), de Abdias Nascimento.

A proposta do artista era valorizar a cultura negra e questionar a representação estereotipada dessa população na dramaturgia brasileira. Foi o catalisador para que Haroldo e seus companheiros buscassem uma forma de arte que unisse o rigor técnico à autenticidade das manifestações populares. O grupo original contava com nomes que se tornariam pilares da cultura brasileira, como Dirceu de Oliveira e Wanderley Batista, além do próprio Haroldo Costa, que mais tarde se tornaria o primeiro ator negro a protagonizar uma peça no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com a montagem histórica de Orfeu da Conceição.

“O grupo queria algo mais alegre e menos dramático”, explica Joel Zito Araújo, “um show de dança que conta a história do negro no Brasil. Começava com o navio negreiro, o sofrimento do negro na travessia do Atlântico diante da escravidão, depois tinha a colheita do café, as primeiras construções culturais, como o maracatu e o samba, e passa pela história até o encerramento com o Carnaval”.

A transição para a marca Brasiliana foi arquitetada pelo empresário polonês naturalizado brasileiro Miécio Askanasy, que enxergou no grupo um alto potencial de exportação. Para ele, o nome original “Teatro Folclórico” soava acadêmico e pouco comercial para o entretenimento global. A nova identidade facilitou a entrada nos circuitos europeus.

“Em 1951, a Europa ainda estava muito deprimida com a Segunda Guerra Mundial”, comenta o diretor sobre o sucesso de Brasiliana, “[os artistas] se apresentaram nas maiores salas de concerto de cidades como Paris e Milão, foram convidados para o aniversário do imperador no Japão, dividiram palco com Beatles, participaram de filme com Sophia Loren e abriram a Copa do Mundo da Alemanha em 72. Fazer o documentário foi como colocá-los no mapa cultural do Brasil como o grupo importante que eles foram, remover sua invisibilidade”.

Saiba mais sobre Abdias Nascimento no site Ocupação Itaú Cultural

Estrutura

É curioso notar como um país como o Brasil, com olhos virados para o exterior, deixou escapar de sua história uma companhia com tamanho reconhecimento estrangeiro. O país celebra o reconhecimento global de seus nomes na música, como João Gilberto e Tom Jobim, ou cinema, como Fernanda Torres e Wagner Moura recentemente. A explicação para isso é também cultural, com o racismo estrutural sobre o qual a nação foi construída.

Brasiliana é um grupo de negros contando a história do Brasil a partir de sua vivência e sua perspectiva”, conta Joel Zito Araújo, “e a cultura brasileira apaga o negro como criador, como uma contribuição fundamental para sua formação”.

“Eles não estavam preocupados em discutir o racismo, mas em mostrar a força da cultura negra. Embora falasse da chegada dos navios negreiros e o sofrimento nos navios, o negro como escravo das colheitas de café etc., era um espetáculo de empoderamento. E seu impacto, principalmente na cabeça do europeu, era o impacto da beleza da alegria, e um pouco da nossa falta de pudor em relação ao corpo e à sexualidade”.

“Era um grupo formado inicialmente por bailarinos e bailarinas em sua maioria de baixa escolaridade, homens e mulheres negras periféricos, de baixa renda. Eles nem tinham tanta consciência da contribuição que estavam dando para a cultura brasileira, e também não tinham mecanismos de advocacy, de brigar por esse lugar deles nessa estrutura”, ressalta o diretor.

Memória

Com apoio do Itaú Cultural, Brasiliana foi filmado entre o Brasil e a Alemanha, onde muitos dos dançarinos se estabeleceram após o fim do grupo em 1974. As pesquisas de imagens que acompanham a narrativa do filme foram realizadas entre o Arquivo Nacional e instituições em Paris - uma parte de nossa história está mais escrita no estrangeiro do que em território nacional.

“Brasiliana contribuiu fortemente com a percepção que o europeu e o asiático têm do jeito brasileiro”, conta Joel Zito Araújo, “aquele grupo de homens e mulheres esguios, bonitos, dançando no palco com alegria, sorridentes - como é o samba, suja tradição é a de sambar sorrindo”.

Desde a estreia de Brasiliana, muitas conversas têm surgido para abrir espaço em nossa memória em relação ao grupo e sua importância histórica. Tanto é que, no Carnaval 2026, a escola União do Parque Acari levará para a Marquês de Sapucaí um samba enredo inspirado na companhia e em seu espetáculo.

Esse fato confirma a intenção de Joel, cuja filmografia já foi chamada de “cartografia audiovisual do negro no Brasil”, de “ajudar a compor o mosaico que mostra que, em várias frentes, a população negra é básica e fundamental na construção da cultura brasileira”.

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