Construído a partir de múltiplas linguagens e da relação com o público, espetáculo “Igba awo” valoriza investigações artísticas
Publicado em 16/07/2026
Atualizado às 12:07 de 14/07/2026
Fundamentado na musicalidade negra africana, Igba awo é, antes de tudo, sobre o processo de criação em si; sobre as possibilidades que emergem da experiência artística e do contato com o público. O espetáculo – que tem a cabaça como base de sua construção –, propõe a exploração de mundos e linguagens numa jornada contínua de investigações e aprendizados.
À cabaça (igba, em iorubá), é dada grande importância na mitologia africana. Nela, esse fruto é tido como “o ventre do mundo"; como objeto que guarda segredos (awo, também no idioma iorubá); e como instrumento que possibilita o acesso à comida e à água. E, para além disso, a casca da cabaça serve como caixa amplificadora de sons. Nesse sentido, Nina Fola – a cantora, compositora, socióloga e artista que protagoniza o espetáculo –, conta que inicialmente a intenção era trabalhar com uma investigação sonora das cabaças, mas elas acabaram ultrapassando a barreira somente do som para virarem estética e presença no projeto. Nina relata que, então, Igba awo ganhou novo rumo, com a cabaça contribuindo para a própria narrativa do espetáculo.
Igba awo, assim, baseia-se na sonoridade de instrumentos que são feitos de cabaça ou que a usam como caixa sonora – seja com esses instrumentos sendo explorados em solos, seja com eles sendo postos em conjunto com outras tecnologias –, de modo a obter sequenciamentos rítmicos e experimentações tímbricas. Dessa forma, o espetáculo mobiliza a visão e a audição – mas busca fazê-lo também, de alguma forma, com o paladar e o olfato.
Nesse sentido, está na essência do projeto lançar um olhar apurado para o trabalho artístico das populações negras africanas, provocando sentimentos acerca de sua resistência física e cultural e reafirmando a importância das mulheres negras e de terreiro, de suas palavras e de suas poesias, de suas músicas e de seus sons.
Uma ideia importante na criação do projeto foi o conceito de afrotempo, criado pelo ator e professor Thiago Pirajira, diretor artístico de Igba awo. Nina explica: “Afrotempo se relaciona diretamente com a valorização do processo, com a valorização daquilo que está no presente; daquilo que emerge da relação entre as pessoas que estão assistindo e as que estão apresentando. [O conceito] reside nessa ideia muito filosófica de que a gente pode construir tempo”, afirma ela. “Isso está em nossas produções e em nossa maneira de pensar o que é produzir cultura a partir de corpos negros, a partir de filosofias africanas, a partir de estéticas do povo preto”, conclui.
A construção do espetáculo deu-se a partir de seis encontros, feitos em dois formatos diferentes: os ensaios-provocação, também chamados de ativações – experimentações em palco com a presença do público, em escolas e praças públicas, terreiros e centros culturais; e os ensaios técnicos – conversas mais analíticas com a equipe de produção completa. Ambos os formatos aconteceram ao longo de sete meses, tendo gerado impressões e recortes para a construção do espetáculo final – o qual é chamado, pela equipe de espetáculo, também de “síntese”. Segundo Nina, o relacionamento com o público foi intenso e de muita escuta. “Estávamos preocupados em ativar memórias, ativar perguntas. Não estávamos preocupados em responder nada”, resume ela.
Para além de tudo isso, Igba awo permitiu que a própria Nina se consolidasse como performer. Segundo ela, uma de suas grandes descobertas no processo foi como triplicar, colocar na máxima potência seus atributos artísticos dentro de uma proposta só, porque, em suas palavras: “Igba awo não é um espetáculo musical, não é um espetáculo de teatro e nem é uma obra de arte, do jeito que a gente imagina, mas também é tudo isso”.
A multiartista ainda destaca que o fato de ela ter construído uma linguagem na qual a mulher negra, cinquenta mais, artista, intelectual, criadora é vista – mas sem que tenha uma identidade muito demarcada – faz com que seu corpo esteja ali representando tantos outros corpos. A ideia, de acordo com Nina, é “colocar o corpo à disposição para sair da imagem artística que temos, sair da captura dos olhares ocidentais que nos identitarizam. Debater as identidades, nas quais sempre é o branco que nos coloca”. Ela conclui: “Eu tive de desfazer todas essas couraças, eu tive de entregar também esse corpo em desfazimento”.