“Elegbapho”, do brasileiro Nando Zâmbia, e “Eu não me calo”, do angolano Manuel Kafina, contam com apoio do Rumos Itaú Cultural
Publicado em 17/07/2026
Atualizado às 13:52 de 17/07/2026
por Cristiane Batista
Zâmbia aprofunda-se no teatro físico ritual, modalidade em que a cena é concebida a partir de um mergulho na identidade do ator e em sua herança ancestral, presente também no corpo. “Aqui, a fisicalidade é o intelecto, o alfabeto do corpo. A relação corpo-voz é tão fundamental quanto o pensamento, então a ideia de que só a cabeça comanda o corpo é contrariada pelo tripé ‘Ori’ (cabeça), ‘Ará’ (corpo), ‘Emi’ (espírito) em pé de igualdade. Essa profusão permite que as hierarquias sejam diluídas e que sejam projetados em cena símbolos, conceitos e estéticas”, afirma o artista.
Mas como o público não iniciado nas práticas do candomblé consegue se relacionar com esse tipo de espetáculo? Segundo Nando Zâmbia, há um princípio dessa pesquisa chamado “tradição na contemporaneidade”. “[Esse fundamento] consiste na criação de pontes entre os espectadores e o espetáculo, principalmente com aqueles que não têm vivência de terreiro, por meio da música, da potência da visualidade, da dinâmica da construção da dramaturgia e da sensorialidade da criação imagética. A gente quer mostrar a grandiosidade e as contribuições do candomblé para a cultura nacional e para as artes brasileiras”, explica o ator.
O projeto Elegbapho organiza-se sobre três pilares: Orikis (poesias em exaltação aos orixás), Orins (cânticos) e Itans (lendas e mitos sobre os orixás). Esses elementos tecem o tema-base: a celebração da pessoa negra e de suas vitórias no decorrer da última década, usando como metáfora a jornada do próprio ator.
“Muito se fala sobre luta, resistência e sobrevivência. Queremos contabilizar também as conquistas”, afirma Zâmbia. “É importante reconhecer as nossas vitórias, principalmente na última década, período denominado Década Internacional dos Afrodescendentes, de 2015 a 2024”, diz o artista. O marco, proclamado pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em 2015, tinha como objetivos promover a proteção e o cumprimento dos direitos humanos e das liberdades fundamentais das pessoas afrodescendentes, como reconhecido na Declaração Universal dos Direitos Humanos, e fomentar o conhecimento e respeito pelo patrimônio diversificado, pela cultura e pela contribuição dos afrodescendentes para o desenvolvimento das sociedades.
“O mundo não tem como negar os avanços plantados por nossos ancestrais próximos e longínquos em lugares potentes. No último século, tivemos centenas de demonstrações de avanços e a consolidação de direitos, que estão garantidos na Constituição. Direitos não podem ser vistos como privilégios, eles são a base de tudo”, pontua Zâmbia.
Cotistas egressos da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Zâmbia e Onisajé comemoram os resultados das ações afirmativas que reservam vagas em instituições públicas para pessoas negras, pardas, indígenas e quilombolas no Brasil desde 2012. “Começo com as cotas raciais nas universidades, porque elas abrem portas para o processo de empoderamento e emancipação, contribuem para que esses ambientes sejam mais plurais e fazem com que pessoas pretas tenham acesso ao conhecimento e às suas diversas áreas”, analisa Nando Zâmbia. “As cotas são fundamentais e continuam sendo urgentes, tanto nesse processo de reparação, no sentido de acesso da comunidade negra e pobre, como no processo de empretecimento dessa universidade e do tensionamento das mudanças dentro desse espaço ainda branco, colonizado e europeizado. As cotas também são portais de ampliação, porque possibilitam não só a entrada, mas também a permanência de estudantes pretos na universidade”, complementa Onisajé.
Em seu campo de atuação, Nando também destaca mudanças estruturais. “Migramos de uma arte que denunciava o racismo para um teatro que pretende expressar subjetividades negras e que exige a presença, em seus quadros, de mulheres e homens, coletivos e indivíduos negros que nunca estavam em cena ou para os quais era reservado um lugar depreciativo. Hoje, vários artistas estão desenvolvendo linguagem, estética e pesquisa, além da prática. É um movimento que se constrói e se amplia por meio das referências e do protagonismo negros, da universidade, da ideia de coletivo e de indivíduo. Estamos indo além do enfrentamento e essa é uma conquista que começou no século XX com Abdias do Nascimento e que vem se efetivando e se ampliando ao longo do tempo”, analisa o ator.
Ele cita como exemplos as experiências dos grupos Coletivo Negro, Bando de Teatro Olodum, Cia. dos Comuns, Os Crespos, Cia. de Arte Negra Capulanas, Onisajé e Cia. Quatro Ventos, além do Núcleo Afro-Brasileiro de Teatro de Alagoinhas (Nata), do qual fez parte por vinte anos. “Nossos espetáculos retiraram as divindades afro-brasileiras do costumeiro folclórico ‘pano de fundo’ das tramas teatrais e televisivas”, comenta Nando. E ele continua a reflexão, com exemplos. “Após pavimentar esse caminho, podemos festejar ícones negros nos palcos, como no musical Dona Ivone Lara – um sorriso negro, dirigido por Elísio Lopes Jr.; ou ainda nas peças O topo da montanha, dirigido e estrelado por Lázaro Ramos, que dividiu o palco com Taís Araújo, e Cartola, o mundo é um moinho, de Roberto Lage. Estamos avançando para homenagens à literatura negra também, como nos espetáculos Traga-me a cabeça de Lima Barreto e Pele negra, máscaras brancas, ambos dirigidos por Onisajé, e, mais recentemente, Torto arado, adaptação do livro homônimo de Itamar Vieira Jr.”.
Para além do campo das artes, Nando Zâmbia destaca ainda o campo esportivo. “Há algum tempo, no Brasil, éramos direcionados para o futebol quase que como o único lugar possível. Quero ressaltar, tomando o país como parâmetro, o empretecimento da seleção brasileira de vôlei, dado como um esporte de ‘elite’. Antes, sempre tínhamos pessoas brancas e de classes abastadas como praticantes, principalmente em alto nível. Hoje existe um equilíbrio racial muito maior, o que inspira jovens a se sentirem pertencentes e a perceberem que podem pensar nessa atividade profissionalmente”. Para conferir de perto esse fenômeno, a pesquisadora Onisajé está à frente do documentário Black Point, que investiga a presença negra desde os primórdios do voleibol no Brasil.
“Precisamos entender esses avanços e registrá-los para seguirmos com a certeza de que as coisas estão acontecendo e de que nós estamos dando seguimento ao legado de luta dos nossos ancestrais, pois quando não refletimos sobre o que conquistamos, apagamos a vitória, relegando-a a uma ação simples, quando não é”, conclui Zâmbia. O resultado do trabalho foi apresentado em espaços da cultura negra alagoinhense e soteropolitana ao longo de 2025.
Território de sobrevivência negra: um olhar estrangeiro estratégico
No Brasil há mais de dois anos, Manuel Kafina, autor angolano de Eu não me calo – a África nas ruas de São Paulo, vê em seu novo experimento teatral a oportunidade de compartilhar a sua história e a de muitos compatriotas que, como ele, buscam no dia a dia da capital paulista muito mais do que a sobrevivência. “Nos olham como uma multidão preta de gente vendendo meias, pentes, relógios, tecidos, camisas, calças e guarda-chuvas nas calçadas”, diz o artista, cujo espetáculo aborda a sua realidade e a dos demais imigrantes e refugiados africanos nas ruas do bairro paulistano do Brás. “O meu trabalho traz um corpo africano para a cena e humaniza pessoas que, aqui, como eu, são esquecidas e, por muitas vezes, humilhadas”, conta Manuel.
Nascido em Benguela, umas das maiores cidade de Angola, Manuel Roque Kafina começou a fazer teatro amador na igreja católica há uma década. Dois anos depois, profissionalizou-se na Cia. Ngola Teatro Benguela, onde pôde conhecer um pouco mais sobre a produção artística e os atores brasileiros – experiência que o motivou a atravessar o oceano.
“Meu segundo nome, Roque, inclusive, foi dado em homenagem ao personagem Roque Santeiro, da novela homônima. Os amigos do meu pai me chamavam de Roque, o Santeiro”, ri Manuel. “Sempre quis vir para o Brasil, especialmente para São Paulo; era um sonho de criança. Ao chegar, senti medo e nervosismo tão logo pousei no aeroporto. Como será a minha vida longe dos meus pais, em um território tão vasto, onde simplesmente estaremos eu, Deus e a minha sorte? O que será de mim se eu fracassar? Mas, no meio de tudo isso, tinha aquela sensação de vitória: cheguei aonde queria estar”, lembra o autor.
Manuel conta que não veio iludido, pois já tinha amigos artistas que compartilhavam com ele suas experiências, mas, com o tempo, viu que a realidade era menos convidativa do que imaginava. “Aqui, o que somos? Uma grande massa preta de africanos de muitas origens. Deixamos nossos sonhos para nos tornarmos ambulantes, homens sem família, apenas trabalhadores. Precisamos recuperar o nosso desejo de fazer arte! Sou artista e preciso reencontrar espaços de respiro no sufoco do território da cidade grande”, reflete.